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Aventuras


EM CASO DE DÚVIDA, NÃO ARREMETA. POUSE DE QUALQUER JEITO

Aquela máxima que aprendemos no aeroclube: "Em caso de dúvida, arremeta", no garimpo não é aplicável. É lógico que tem exceções, dependendo da pista. Esta é uma regra geral.

As pistas são construídas pelos garimpos que entram floresta aden¬tro à custa de ouro e, quando o encontram, escolhem o melhor ter¬reno dentro do mato para construí¬la. Quanto mais afastada do ouro, maior será seu trabalho, no futuro, para carregar equipamentos, óleo, etc. Assim, a escolha do "melhor ter¬reno" é muito relativa. Melhor para quem??? Daí surgem as pistas "brabas" tipo: em curva, com incli¬nação lateral, com morro na aproxi¬mação, corcova de camelo, etc.

Lembro da 15 de Julho que ficava ao lado da Tiragi. Era uma das pistas mais estranhas, mas não das mais difíceis. Como o único espaço mais ou menos plano ficava junto ao pé do morro, porém, com a inclinação ao contrário, a decolagem era ladeira acima e o pouso ladeira abaixo. Decolar ladeira acima até é possível se limitarmos bastante o peso, mas pousar ladeira abaixo não dá, pois corre-se o risco de quebrar a bequilha se forçar muito o freio e, se não forçá-lo, varar a pista.

Fizeram então a cabeceira para pouso antes da parte alta da pista, no barranco. Na aproximação tínhamos que "afundar" dentro do baixão e tocar num terreno com uns 45° de inclinação. Para tocar sem quebrar o motor, tinha que ser levado a plena potência para iniciar uma subida e evi¬tar uma placada. A ladeira tinha cerca de 70-80 metros e era suficiente para parar o avião, o que acontecia no topo, quando a pista já começava a descer.

Normalmente o terreno mais seco é inclinado e é lá que eles fazem o trabalho. Como o declive sempre é acentuado, pousa-se morro acima e decola-se morro abaixo. Em conse¬qüência, só uma cabeceira é utilizá¬vel e eles seguem ao pé da letra a lei do menor esforço e a lei do Ibama. Só derrubam as árvores na cabeceira que será utilizada. Na outra, ficam de pé as castanheiras com cerca de 50 me¬tros de altura que são uma bela bar¬reira para um avião carregado (até demais) e que, com flape todo baixa¬do, não consegue mais que 100 pés/mino de razão de subida. Às vezes, o vento ainda está de cauda para complicar a vida do piloto.

Eu arremeti uma vez! Graças a Deus, a pista era uma daquelas pou¬cas que permitem. Chamava-se Serra Verde e ficava paralela a umas ele¬vações de cerca de 500 pés. Só eu operava lá, puxando óleo de Jacareacanga, que ficava a uns 15 minutos de vôo. Fazia 8 a 9 pernas de óleo por dia. No início seguia a outra regra: nunca pousar direto. Sempre sobrevoar a pista para reconheci¬mento. Vinha de Jacareacanga, pas¬sava sobre a pista, curvava à esquer¬da flapeando e pousava.

Um dia, lá pelo terceiro ou quarto vôo, para ganhar tempo, comecei a vir baixando antes dos morrotes, fazendo uma base direta pela direita, flapeando e, já com o fIape todo embaixo, avistava a pista a tempo de desfazer de asa e tocar. No final do dia, numa das últimas pernas, quando avistei a pista, tinha um avião no meio dela em frente à cantina e outro no final da mesma. Se pousasse, dava

“carambola", pois o avião na pista deixava 150 a 170 metros livres para um lado ou para outro.

A única chance era arremeter. Não tinha as castanheiras, só a elevação da pista e uns mil metros adiante uma elevação maior. A dificuldade toda era no recolhimento do fIape, pois subindo o avião não embala para poder recolhê-lo e, sem recolhê-lo o avião não sobe. Foram alguns minu¬tos de sufoco, driblando árvores e ten¬tando ganhar altura por dentro dos baixões até conseguir recolher o fIape e subir para voltar à pista.

Um avião em pane pousara lá (o que estava na cabeceira) e o outro foi levar socorro. Eu nunca iria contar com isto. Depois do susto, voltei a obedecer a regra.

Inúmeros pilotos perderam a vida por não cumpri-Ia, alguns bateram e não morreram. Lembro de um que eu levei para Itaituba, após ter entrado voando com um "carioquinha" na pista nova perto do Patrocínio. O avião queimou e ele estava carregado de óleo. Sofreu queimaduras por todo o lado, mas salvou-se.


EM PANE NA DECOLAGEM, NUNCA POUSE EM FRENTE

Jogue no topo das árvores nas la¬terais. Aquilo que nos ensinaram nas escolas de aviação, no garimpo, se usado ao pé da letra, nos causará sérios danos ou até a morte. O pouso em frente é, na maioria das vezes, fatal. Um desvio de 45° é o mais correto.

É impressionante a tentação que o piloto tem de jogar o avião em pane no desmatamento aberto na área de aproximação. Parece um tapete verde, pois as folhas da Imbaúba, que crescem assim que é desmatada, fecham e escondem os tocos e os troncos das árvores, fazendo uma perfeita armadilha para os incautos.

Lembro de um piloto, ex-sargento controlador de vôo da FAB. Também voava um carioquinha. Estava há um mês operando com a bomba de com¬bustível elétrica ligada (aquela que só deve ser ligada nas decolagens, pousas e em caso de pane da bomba mecânica). Havia quebrado a bomba mecânica, mas ele "não podia parar o avião para consertá-la".

Numa decolagem lá no Km O, a bomba elétrica pifou e o motor parou. Ele jogou no desmatamento. O tronco da castanheira que ele encontrou pôr baixo da Imbaúba, tinha uns dois metros de diâmetro. A carga era de carne e não estava amar¬rada. Imprensou-se contra o painel.

Pousar no mato, sobre as copas das árvores é muito mais macio do que encarar a sua base ou o seu tron¬co deitado. Nesta hora, não se tem muita escolha. Qualquer copa é me¬lhor do que o desmatamento. Quando há escolha, pode-se optar por uma copa da castanheira ou pelo açaizal, se houver chance. O pouso na castanheira tinha o inconve¬niente de ser feito a 50/80 metros de altura e eu sempre esquecia a corda. Contam uma história do piloto que fez tudo certo, inclusive tinha a corda. Após conseguir placar o C206 na copa, desceu do avião, amarrou a corda e começou a descer pela mesma. Quando chegou a sua ponta, constatou que ainda tinha mais de 30 metros de árvore até o chão.

 

 

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