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Cronicas


QUASE DO LADO DE LÁ...

Eu pousei n'água no dia 24/06/95, a 50 Km da costa da Flórida-EUA, após decolar de Ft. Lauderdale , com um PAWNEE, aeronave agrícola, trem fixo, convencional e asa baixa que eu fora buscar para um cliente de Ponta Grossa-PR.

O motor parou após eu ter ligado o sistema de combustível auxiliar que utiliza a gasolina transportada no "hoper" (tanque próprio para carregar o veneno na pulverização) e ter fechado a "shutoff" ( válvula de combustível) do sistema principal, não tendo voltado a funcionar quando abri novamente a "shutoff" e liguei a bomba elétrica. 

-Não acreditei , em momento algum, que não conseguiria dar partida antes de chegar na água, embora não tivesse muito tempo para isto pois, devido ao teto baixo, voava a 900 pés de altura.

- Em conseqüência disto não me preparei para o pouso, tentando dar partida até bater na água.

-Com o mar calmo não havia sinais de vento forte. Aproei o avião para um barco que avistei afastado uns 3 Km e mantive a reta até o pouso.

-Arredondei e estolei ( diminui a velocidade do avião) uma fração de segundos antes das rodas tocarem na água. Após o toque o nariz do avião enterrou na água e ele afundou na vertical, no instante seguinte.

-Não estava adequadamente trajado para o vôo sobre a água. Como eu voaria a metade da rota sobre o mar e a outra sobre floresta, preocupei-me mais com a floresta. Estava vestindo botas, calça jeans e macacão de vôo cor de laranja. Usava um colete salva-vidas cujos bolsos estavam cheios de material de sobrevivência ( ELT9 sinalizador de emergência por satélite), material de pesca, isqueiro, lanterna, comida, etc ).

-O cinto de segurança da aeronave não era adequado: os suspensórios eram costurados nas pontas do cinto, e nele ficavam presos quando se abria o fecho do cinto.

-Em conseqüência disto, ao tentar sair da cabine, já submersa e cheia d'água, fiquei preso pelos ombros e, na tentativa de desvencilhar-me dos suspensórios, perdi meu colete salva-vidas.

-Não havia nenhuma chance de tirar o macacão e as botas que me impediam de nadar, e ainda tinha ferramentas, pilhas reserva para o GPS e outros apetrechos nos bolsos das pernas do macacão, cujo peso puxava-me para baixo.

-A única ação que me restava era tentar manter-me na superfície o que era tremendamente dificultado pela dor que sentia devido à queimadura química que a gasolina espalhada sobre a água produzia na minha pele.

-Não havia conseguido transmitir nenhuma mensagem de socorro pelo VHF devido ao congestionamento da freqüência e por não ter podido selecionar a freqência de emergência. A aeronave não dispunha de transponder para seletar o código de emergência, assim ninguém sabia do meu pouso.

-Quando o barco que vinha em minha direção e que era minha única expectativa de salvação fez 180º de curva e foi embora, levou consigo qualquer esperança de sobreviver.

Pela primeira vez na minha vida senti a proximidade da morte como jamais acontecera antes, mesmo quando cai com um jato "xavante" da FAB. Em todos os acidentes anteriores, o fator tempo foi muito pequeno, fração de segundo. Batia e logo sabia as conseqüências. Nos instantes que antecediam ao acidente eu brigava com a máquina que teimava em derrubar-me. Nesta luta sempre há a esperança de se poder evitar o pior e não há, pelo menos para mim, nenhuma sensação de medo, não há sofrimento psicológico. Sempre saí inteiro, ou quase. 

Neste caso também, o "acidente" foi o pouso n'água, e este ocorreu rápido e sem grandes sustos. O único risco foi o de ir para o fundo preso aos suspensórios, mas que resolvi em segundos, desvencilhando-me deles. Nem deu para assustar.

Ao chegar à superfície d'água, quando não encontrei o tubo para inflar o colete salva vidas e vi que o havia perdido, senti, pela primeira vez, a gravidade da situação: estava a 50 km da costa, sem bote e sem colete. Não conseguia nadar devido às botas e ao macacão de vôo e manter o rosto fora d'água exigia enorme esforço devido ao peso dos objetos que carregava nos bolsos e à exaustão causada pela falta de ar no tempo em que fiquei submerso. Além disto, havia bebido água misturada com gasolina enquanto me desvencilhava dos cintos e saia do avião que afundava. Sem o ELT ( sinalizador de posição) e sem ter conseguido comunicar o meu pouso, minha única esperança estava no navio que vinha em minha direção. 

Ao sair de casa, como não achei minhas luvas, peguei um par que pertencia ao meu filho. Naquele sufoco todo, as luvas atrapalhavam a tentativa de nadar e boiar. Tirei-as e tentei guardá-las para devolvê-las. Nesta hora ainda confiava em que seria resgatado pelo navio que vinha em minha direção.

O ato de levantar a cabeça para checar a sua posição era acompanhado de enorme esforço, pois toda vez que tentava, as pernas afundavam e era-me muito penoso conseguir trazê-las de volta à superfície.

Na última vez que avistei o barco que seria minha salvação, ele estava de lado, já na metade da curva de 180 º que fez para retornar ao seu ponto de saída ou para prosseguir na sua pesca, não sei bem.

Foi um dos momentos mais trágicos que já vivi na vida e aquela foi uma das visões mais desalentadoras.

Impressiona-me um pouco a resignação com que aceitei o fato. Afinal de contas, aquela curva do barco decretava o meu fim pois aquela era minha "única" chance de sobrevivência. Como ninguém sabia do meu pouso e só descobririam que não cheguei em Providenciales daí a 5:30 hs, tempo demais para alguém ficar sobre a água naquelas condições, realmente aquele barco era minha "última" chance. Hoje talvez eu não volte a pensar em "última" ou "única" chance, pois me foi provado que a morte só ocorre quando chega a hora e aí, mesmo que existam inúmeras possibilidades de salvação esta não ocorrerá. São as tais das mortes "estúpidas" que ninguém entende como podem ter ocorrido mas que ocorrem pois "era a hora".

Estar preparado para a morte!! Parece-me um pouco fatídica esta afirmação. Talvez "estar em paz consigo mesmo" seja mais adequado. Não ter arrependimentos por atos mal feitos. Nunca ter prejudicado alguém, pelo menos voluntariamente. Tudo isto te ajuda a aceitar a morte com certa naturalidade. Não tive medo de morrer. 

Das muitas coisas que pensei guardo duas: a tristeza de pensar que não veria meu neto crescer (ele tem seis meses) e o fato de que não me conformava em morrer afogado depois de tantos acidentes que já tive na vida.

Hoje, depois de chegar a conclusão de que aquele barco não apareceu ali por acaso, brinco dizendo que tenho uma dúvida: serei tão mau que devo permanecer vivo para pagar mais dívidas ou serei tão bom que não merecia morrer daquela maneira. Na realidade, acredito que a resposta é: não era a minha hora.

A mente humana tem poderes que pouco conhecemos. Após constatar que ninguém no barco me avistara, talvez para livrar-me da dor e do cansaço, "sai do ar" e voltei cerca de uma hora depois como que "acordando", ao ouvir um barulho. 

Abri os olhos e avistei um barco pequeno a cerca de 50 m de distância, com um homem jogando uma linha de pesca no mar. No terceiro grito ele olhou em minha direção e avistou meu braço que eu levantara com muito esforço, acenando-lhe e pedindo socorro. Eu usava um macacão cor de abóbora que meu filho me fez colocar na mala em troca do meu azul com o qual não teria sido avistado.

-Fui resgatado pelo coreano SHUN SON KIM, de 59 anos de idade, que pescava sozinho em seu barco a 50 Km da costa e que por algum motivo parou a 50 m de onde me encontrava, sem nenhuma esperança de ser salvo, para jogar sua linha n'água.

Mr. KIM por si só vale um capítulo à parte. Mora nos EUA desde 1972 quando chegou da Coréia e foi morar na casa em que está até hoje. Trabalha como marceneiro, fazendo móveis e ele mesmo construiu seu barco que usa para pescar nos fins de semana, o que faz normalmente só.

A sua figura esguia recortada contra o céu e jogando a linha n'água ficou gravada na minha memória e talvez jamais se apague pois representou o milagre que não tive a ousadia de pedir a Deus. Fisicamente ele lembra aqueles monges tibetanos, como vi nos livros do Lobsang Rampa a muitos anos atrás.

Jantei com ele na noite seguinte e soube que, um ano antes, ele avistou um barco em chamas e dirigiu-se para o local. Ao aproximar-se viu o barco ir à pique e ao chegar não havia mais nada sobre a água. Já ia abandonar a área quando avistou um rosto fora d'água. Recolheu o corpo de um homem à bordo e constatou que ainda havia sinal de vida. Prestou-lhe os primeiros socorros, chamou a Guarda Costeira que enviou um helicóptero e salvou outra vida.

Lembro que ao ser avistado por ele, minha preocupação foi a de agüentar até sua chegada, tal o estado de exaustão em que me encontrava. Na primeira tentativa ele ainda atrapalhou-se e não conseguiu parar junto a mim. Estava visivelmente nervoso. Ele parou o barco a alguns metros e ficou com um monte de cabo nas mãos. –Jogue o cabo, gritei-lhe. Consegui pegá-lo bem na ponta mas o suficiente para ele poder puxar-me até a borda do barco onde cheguei já no desespero, e ao qual agarrei-me para não soltar mais. O barco, de madeira, foi realmente minha "tábua da salvação". 

Ali, agarrado ao barco, passei uma eternidade. Minhas forças, esgotadas, não eram suficientes para fazer-me subir à bordo e o coreano, pequenino, também não as possuía. Após algum tempo que não sei quantificar, consegui alcançar a borda do barco com a mão direita e, a muito custo, erguer a perna e pisar num degrau no qual apoiei-me para içar-me ao barco. O torpor dos momentos de antes dá lugar a outras sensações. Primeiro a excitação e a alegria de "viver novamente". É como que um renascer . Depois, com a segurança do barco, voltei a sentir a dor da queimadura química produzida pela gasolina. Tirei o macacão de vôo e a camisa e o Kim descalçou minhas botas. A pele doía demais e eu pedi água doce para jogar no corpo, na tentativa de remover a gasolina e diminuir a queimadura por ela causada. Escondi-me do sol sob a capota do barco que já rumava para Fort Lauderdale, numa viajem que durou cerca de duas horas e meia. O ar marinho piorava a dor e eu tentava proteger-me dentro do barco. Sentia muita sede mas havia consumido toda a água jogando-a no corpo. Não sabia que aquela garrafinha era tudo que ele levava para alto mar numa pescaria de dia inteiro.

À meio caminho da costa, mantínhamos uma proa ao redor de 270 º, avistamos um avião da Guarda Costeira em vôo circular e vários barcos. Imaginei que estavam à minha procura, embora umas 15 NM ( milhas náuticas) fora do lugar correto. Chamei pelo rádio do Kim e uma embarcação atendeu-me. Informei então que eu era o piloto que caíra no mar e que já havia sido resgatado, estando à caminho do continente, pedindo que ele comunicasse à aeronave que sobrevoava os barcos. Estranhei o fato de ver que eles permaneciam na busca, e só no dia seguinte entendi o que ocorrera, quando li a notícia de que procuravam o corpo de uma mulher que caíra ao mar durante a noite quando voltava das Bahamas com o marido, no regresso de uma viagem de três messes à bordo do veleiro da família.

Chegamos à Marina dos Everglades de onde liguei para o Arthur pedindo que me apanhasse lá e para a FSS-Flight Service Station (órgão de controle de tráfego), onde preenchera meu plano de vôo, para dar a minha "mensagem de pouso". 

Lembro da surpresa da pessoa que atendeu-me ao telefone quando, após dizer-lhe que o N57880 (prefixo do avião), que havia decolado de Ft Lauderdale Executive com destino à Providenciales pousara a 35 NM dali. Ele perguntou-me a hora do pouso e eu lhe disse. Neste momento ele se tocou de que àquela distância, na minha rota, não havia nenhuma pista, só água. Perguntou-me onde eu pousara e respondi-lhe que fora na água e que eu estava na Marina dos Everglades aguardando meu amigo que iria apanhar-me lá. Pediu um telefone de contato e parabenizou-me pela sorte de ter sido salvo.

Nestas alturas, eu estava com um aspecto deplorável: descalço, com uma calça jeans molhada e sem camisa.

Não havia um bar nas imediações e a sede era terrível, tanto pela água salgada com gasolina que bebera, quanto pela sede que é causada pelo intenso "stress" que sobrevêm numa situação destas.

Avistei uma família que preparava o barco para pô-lo n'água para o passeio de fim de semana. Cheguei próximo e, meio sem jeito, expliquei que acabara de cair no mar com um avião e que estava com uma "baita" sede. Deram-me um copo d'água gelada mas ficaram me olhando com incredulidade. Imagino que deviam estar na dúvida se era eu um louco ou inventara a história para ganhar um copo d'água.

Troquei endereço com o Kim e logo o Arthur chegou, levando-me para sua casa. No trajeto contei-lhe a história e, ao chegar, tomando uma cerveja gelada, repeti-a para a Bety, sua esposa, e depois para os vizinhos, e para o Wilson e.... . Até hoje já contei algumas centenas de vezes. A surpresa das pessoas ao ouvir a história me fez acreditar que realmente não existem muitas pessoas que tenham passado por tal tipo de experiência, especialmente nas circunstâncias em que ocorreu o meu salvamento.

Tomei um banho de água doce e aí surgiu o primeiro problema: não tinha roupa para vestir. O Arthur emprestou-me tudo, desde as meias , cuecas, sapato , calça , cinto , camisa, até o boné , em substituição ao meu chapéu de Indiana Jones que sempre uso e que vi boiando logo após chegar à tona. Interessante foi não ter perdido meus óculos de leitura que trazia pendurados ao pescoço.

Quando saí do banho o Arthur e a Bety tentavam secar as coisas que eu tinha nos bolsos e na "pochete". Todos meus documentos, Passaporte, Licenças de piloto, dinheiro, estavam molhados. Espalhamos sobre toalhas e, com ajuda de um ventilador secamos tudo. 

Telefonei para casa para dar notícias, mas atendeu a secretária eletrônica e eu só deixei um recado: chegaria na terça-feira pela manhã, para o meu aniversário. Era sábado e eu não tinha minha passagem de retorno pois o bilhete afundara com minha mala e todos os meus pertences.

Com o carro do Nilo e do Erich, donos da Concorde Indústria Aeronáutica que me contrataram para buscar o Pawnee (modelo do avião), e que eu estivera usando na semana que antecedeu ao acidente, fui para um shoping center comprar roupas e uma mala. Depois passei num supermercado para comprar material de higiene e voltei para o hotel, de onde telefonei para uns amigos com os quais fui jantar e beber chopp em comemoração ao meu renascimento. 

No domingo fui comer um churrasco na casa do Arthur e à tardinha fui à casa do Kim convidá-lo para jantar. Tive que esperar até a noite quando ele voltou da sua pescaria. Seus vizinhos sabiam do acidente pelas notícias nos jornais e na televisão mas não tinham idéia de que o meu salvador era o pequeno coreano que morava naquela casa e que era conhecido como a pessoa mais prestativa das redondezas, alguém sempre pronto a ajudar os outros.

O Kim levou-me a um restaurante coreano onde me fez experimentar uma enorme quantidade de pratos típicos. Dizia sempre: - Você tem que comer para repor as energias. Quase tive uma indigestão com tanta comida. Interessante a cultura oriental. Após salvar-me, aparentemente ele passou a sentir-se responsável por mim. A todo instante ele perguntava se eu estava bem, se queria algo diferente. Nunca imaginei ter um meio- irmão coreano, e agora tenho.

Peço desculpas ao meu "anjo da guarda" por mais este trabalho extra que lhe arranjei. Espero que ele não se aposente tão cedo.

 

 

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