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Cronicas


O VOO QUALITATIVO

Lembro bem, ainda hoje, da “fissura” que eu tinha de voar asa delta. Logo que aprendi a voar não entendia como os mais antigos faziam apenas um ou, no máximo, dois vôos por dia. Ficavam esperando pela melhor hora e só decolavam “na boa”, quando as condições de vento ou de térmica permitiriam realizar um vôo mais longo. Eu, fissurado, decolava tantas vezes quantas caronas para a rampa eu conseguisse, mesmo que para realizar um “vôo direto”, daqueles em que o “vario” nem apita uma única vez.

O mesmo se repetia com os volovelistas,quando ficávamos a espera das “térmicas” e só decolávamos depois de dez, onze horas da manhã, quando elas começavam a “bombar”.

Um sábado, tempos atrás, passei a manhã no Clube de Aeronáutica e depois fui ao CEU-Clube Esportivo de Ultraleves e, mesmo vendo muitos ultraleves em vôo não senti vontade de voar. Estava ventando Norte naquele dia. Mas, no final da tarde, quando o Gunnar decolou com seu Pitts S1A e treinou sua seqüência de manobras, aí sim lamentei não ter um avião acrobático disponível para dar umas “cambalhotas”. Na volta para casa vim pensando no porque dessa “mudança” de atitude...

Seria coisa da idade......ou seria por já ter voado muito? Seria por já ter experimentado quase todos os tipos de aeronaves e por ter feito vôos emocionantes que eu perdi aquela “tesão” que, quando jovem e iniciante em algum tipo novo de vôo, me fazia realizar tantos vôos quantos podia, sem questionar a qualidade da máquina, a condição da meteorologia ou quantos vôos já havia realizado no dia?

Nós, os aerodesportistas, somos uns privilegiados pois nunca somos obrigados a voar, como os pilotos profissionais o são. Podemos escolher a hora que vamos decolar, a duração e o destino do vôo ou, simplesmente não voar. Imagine você ter que voar quando o vento está “terral”, vindo quente e turbilhonado, ou quando você gostaria de ir à praia ou velejar!!!

Nós, os aerodesportistas, temos o privilégio de só voar os “bons” vôos, os vôos de qualidade.

É isso, com certeza, que explica a grande quantidade de pilotos profissionais que voa a trabalho a semana inteira e, nos fins de semana, voa o vôo de qualidade, o bom vôo realizado em alguma aeronave desportiva.

Voar é bom demais, ninguém duvida disso. Até hoje, quando vou a alguma festa de aviação, só bebo minha primeira cerveja quando a proximidade do por do Sol me indica que não será mais possível voar. Isso porque sempre fico na expectativa de surgir uma oportunidade de eu realizar algum vôo especial e não quero perde-lo por já ter bebido um copo.

Não abro mão de um vôo de acrobacia, de um vôo na ala, de voar uma máquina diferente, de voar com uma boa companhia, de voar num dia de sol radiante, para sobrevoar uma paisagem magnífica, para levar alguém no seu vôo de batismo,

Pensando bem, naquele dia no Clube de Aeronáutica e no CEU, não senti vontade de voar porque não apareceu nenhuma aeronave diferente nem “aquele” vôo especial. 

Muitos pilotos fazem do seu vôo de final de tarde o “seu” vôo especial. Nem todos gostam da acrobacia ou tem a disponibilidade e um convite para voar em máquinas diferentes. O importante é a satisfação do seu desejo pois a felicidade é isso: satisfazer a maioria dos seus desejos. E aí vai um conselho: nunca sonhe tão alto a ponto de tornar o seu sonho inatingível. Sonhe os sonhos possíveis porém não seja medíocre de só sonhar sonhos pequenos e facilmente realizáveis. A realização dos mesmos não te dará a felicidade que é proporcional ao tamanho e a dificuldade de realização de cada sonho sonhado.

Ah!! Descobri que a “velhice” não tem nada a ver com isso. Já vi muitos velhos que estavam começando a voar, com aquela mesma “tesão” da qual falei no início.

 

 

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