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Cronicas


VOO INTUITIVO

Ouvimos muito falar na “arte de pilotar”. Deverá então o piloto possuir “dotes” artísticos? Ou será que ele necessita apenas de possuir “habilidade mecânica”? 

No meu entendimento, para ser um bom piloto, ambas são necessárias: a sensibilidade de um artista e a habilidade manual para realizar trabalhos mecânicos.

No início do aprendizado o aluno reage muito mais com uma resposta mecânica do que por sensibilidade: se está alto ele pica a aeronave pois ele aprendeu que levando o manche a frente faz com que a aeronave desça. Aí a velocidade sobe e ele tira motor para manter a velocidade pois aprendeu que , se tirar motor desacelera e se der mais motor acelera.

Com a continuação da instrução, os “atos mecânicos” aos poucos vão sendo transformados em “comandos coordenados e lógicos” ou , melhor dizendo, o piloto executa um comando “pensado” e próprio para cada situação em particular. Se a velocidade está caindo mas ele percebe que o nariz está mais alto do que devia, não necessita dar motor, apenas ceder o nariz, para que a velocidade estabilize. Se está com baixa velocidade na rampa para pouso mas está alto demais, basta ceder o manche para voltar à rampa e recuperar a velocidade.

Cada iniciante tem um comportamento diferente. Uns são mais “sensíveis” e logo percebem esses detalhes e têm seu período de “vôo mecânico” bem curto, outros demoram mais e alguns passam a vida sem criar esta “habilidade” de avaliar a situação, voando mecanicamente até encerrar suas atividades aviatórias.

A experiência adquirida depois de muuuitas horas voadas acaba fazendo com que alguns pilotos passem a voar “intuitivamente”, o que não deixa de ser uma reação mecânica só que desta vez é “inconsciente”. É uma atitude reflexa, diferente da do principiante que está completamente concentrado e atento aos comandos que está aplicando na aeronave para pilotá-la.

A repetição sistemática de algumas manobras torna os comandos um ato “reflexo” para muitos pilotos, que os executam sem pensar, intuitivamente.

Conforme a pilotagem elementar passa a ser uma ação “intuitiva”, maior será o número de detalhes que o piloto perceberá em cada situação e, quanto maior o número de detalhes percebidos, maiores chances de executar o comando correto o piloto vai ter. Lembro que, aprendendo a voar o B 727 na Transbrasil, um dia escutei o barulho das velas quando comandei a ignição, durante a partida. Não lembro quantas partidas já havia acionado até aquela data sem nunca ter escutado nada. Meu instrutor me disse:-agora você está começando a ficar à vontade na cabine. Isto aconteceu porque eu já estava acionando a partida “no automático”, não necessitava mais pensar na hora de executar cada comando durante a partida.

Sabemos que o ser humano normal pode realizar, conscientemente, poucas ações simultaneamente. As mulheres têm esta capacidade aumentada em relação aos homens, tanto é que conseguem conversar com uma amiga ao telefone, assistir a novela na TV e ainda prestar atenção na conversa da família ao seu redor. 

A “vantagem” da pilotagem intuitiva está na disponibilidade da atenção do piloto para “fora” da aeronave, pois a pilotagem (manutenção de velocidade, atitude, etc) é feita sem que para isso o piloto tenha que prestar atenção. Isso, numa emergência, lhe dá maiores chances de sucesso, pois permite a ele escolher o melhor lugar para pousar e executar com mais tranqüilidade os procedimentos de emergência previstos no “check list”, inclusive tentar uma partida em vôo.

Alguns pilotos são mais hábeis que outros. Na aviação militar, temos uma seleção rígida e, mesmo dentre os que são declarados aspirantes aviadores, alguns são indicados para a aviação de caça que exige maiores aptidões do piloto mesmo antes de ter acumulado experiência. Na aviação civil, temos muitos pilotos reconhecidamente “superiores” em sua aptidão de pilotagem. Esses pilotos mais hábeis desenvolveram o vôo “intuitivo” no seu mais alto grau em menor período de tempo, ou seja, com menos experiência de vôo ( menor horas).

 

 

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