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Cronicas


SÓ CAI QUEM VOA

“Bom piloto é aquele que tem o mesmo número de pousos e decolagens”, dizia o CMTE Lili Souza Pinto, um respeitado piloto que ajudou a construir a história da VARIG. Concordo com ele, quando nos referimos à aviação comercial, voando aviões homologados e realizando vôos normais, mas já conheci ótimos pilotos que estão devendo alguns pousos e seria injusto não reconhecer-lhes os méritos. Para pilotos desportivos deveremos achar outra definição para os “bons”, pois a competição leva o piloto a entrar pela “margem de segurança” que normalmente é observada num vôo de recreio, assim como num vôo de teste de um protótipo ou num vôo de demonstração de acrobacia, o “grau de risco” é bem mais elevado. É o tal do “risco calculado”. 

O ideal da segurança de vôo é o índice de acidentes igual a zero, mas este só será obtido se ninguém decolar, embora a maioria dos acidentes possa ser evitada. Na análise dos acidentes que ocorrem, vemos que o fator que mais contribui para que ele ocorra é a “falha humana”.

O meu acidente com um AT-26 Xavante eu já contei. Sofri vários outros, a maioria “evitáveis”.

A primeira “arborizada” no vôo livre foi em S. Cornado quando eu tinha uns dez vôos de asa delta. Naquela época , no início de 1978, eu voava F-5 no 1º /14º GAV em Canoas-RS, e tinha aprendido o vôo livre com dois Patrulheiros Rodoviários, o Gilberto e o Roberto.

Nas férias vinha para o Rio e voava ali na Praia do Pepino com minha Cirrus 3.

Num final de tarde estávamos na rampa montando os “brinquedos” quando vi as nuvens chegando por trás, prenunciando a entrada do “terral”, o vento que entra de cauda na rampa e que impede a decolagem. Como eu era o último a decolar e havia uma meia dúzia de “voadores” na minha frente, pedi que não se demorassem nas decolagens para que eu ainda pudesse fazer meu vôo, mas mesmo assim, quando posicionei a asa e estava checando o cinto, senti a areia da área de montagem, atrás da rampa, batendo-me nas costas. Era a primeira rajada do terral que entrava.

Uma das mais importantes lições que eu recomendo a um instrutor de vôo livre é: mesmo que a condição de vento não esteja ruim, pelo menos uma vez, faça o aluno desmontar a asa e descer sem voar. Era o que eu deveria ter feito.

Passada a primeira rajada o vento entrou de frente por uns dois minutos e veio a segunda rajada. Depois da terceira ou quarta rajadas, seguidas de dois minutos de vento de frente, resolvi decolar assim que a rajada de cauda cessasse, pois teria dois minutos para afastar-me da rampa antes do vento de cauda e assim voaria até a praia. Tudo isto para não desmontar a asa, o que seria o mais sensato, uma vez que eu sabia que o vôo seria direto, sem chance de uma “permanência” no “lift”ou numa térmica.

Quando corri na rampa, a Gina , minha ex-mulher, disse que o seu cabelo encheu-se de areia, tamanha foi a rajada do terral. Mesmo picando tudo para ganhar velocidade, a asa continuava quase estolada e tendendo para esquerda, e eu não consegui sair pela direita. Como vi que a “arborizada” era inevitável, escolhi a melhor árvore e “estolei” sobre sua copa.

Por sorte consegui “pousar” com os dois pés num galho que sustentou-nos, a mim e à asa, e lá estava eu com um “baita” problema pois já estava anoitecendo e tinha que desmontar a asa lá em cima da árvore, descê-la até o chão, subir pelo mato até a rampa e encarar a gozação do pessoal, isto tudo cuidando para não estragar a asa, pois queria voar em vários locais que passaria na minha volta à P. Alegre, e eu sairia no dia seguinte.

Após duas horas de resgate, auxiliado pelo “João da mata”, morador local e já acostumado a tirar asas de sobre as árvores, finalmente cheguei à rampa, amarrei a asa sobre o carro e acabei fazendo o que tentara evitar: descer de carro, ao invés de voando.

 

 

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