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Cronicas


PILOTO EXPERIENTE O que é isso?

Todo excesso é temeroso. Excesso de champanhe, de bagagem, de autoconfiança, de mulheres, de noitadas, de sono, de dívidas e porque não de experiência!

O excesso de experiência pode ser traduzido em cansaço. No caso dos aviadores quanto maior a autoconfiança maior o risco de se envolverem em acidentes. É comum nos aeroclubes e escolas privadas o comentário sobre aquele piloto que completou 500 horas de vôo. A partir dessa fase, o sujeito adquiri uma autoconfiança perigosa e normalmente punida pela negligência, a mesma negligência que ele preservou durante o período do “medo”. É raro o acidente fatal escolher o piloto recém formado. Sua precaução e excesso de zelo acabam por preservá-lo. Então, descobrimos um excesso interessante e que pode ser exagerado: “zelo”. Fora isso... 

Para fazer o curso de piloto agrícola o candidato deverá ser Piloto Comercial e possuir, no mínimo, 400 horas de vôo. O DAC exige isto pois não quer “pilotos inexperientes” no curso. A maioria das empresas aéreas exige como pré-requisito a um candidato, possuir 1500 horas de vôo. Será que apenas o número de horas de vôo traduz a experiência do piloto? E a qualidade destas horas não diz nada?

Qual dos pilotos você julga ser mais experiente? 

Eles cursaram a mesma escola e concluíram o curso de Piloto Privado (PP) e Comercial (PC) juntos. Ocorre que ao completarem 200 horas cada um, seguiu proas distintas. O primeiro foi admitido numa empresa regular e voou como co-piloto, por 2500 horas em vôos internacionais e completou 4000 horas como comandante em vôos nacionais sem nunca ter tido uma emergência cabeluda. Sua experiência ficou resumida aos procedimentos quase que mecânicos que a aviação pesada impõe. Por sorte ele não se envolveu em nenhuma situação emergencial e tudo que aprendeu e treinou sobre hipotéticas panes ficou vagando no seu subconsciente. Em contra-partida seu companheiro conseguiu emprego em um táxi aéreo e voou 3000 horas como piloto em comando em vários tipos de monomotores e outro tanto em bimotores, sendo as últimas 1000 em jatos executivos em vôos internacionais depois de vários “suadouros” para localizar, avaliar e pousar em pistas críticas no interior do Brasil. Enfrentou inúmeras panes dentre elas perda de motor na decolagem, colisão com pássaros, condições meteorológicas adversas em mais de 4000 pousos. Pobre do “experiente” comandante internacional que durante seus 600 pousos nem um “catrapo” na pista pode contar. 

Outra análise que vale ser lembrada é sobre o espaçamento dessas horas. Conheço bons aviadores que completaram 2000 horas de vôo depois de 40 anos de vida aeronáutica, isso dá uma média de 4 horas por mês. E se compararmos esse mesmo aviador com aquele garoto de bolso cheio que voa 200 horas por ano... Temos um exemplo na própria FreqüênciaLivre, o nosso editor Juca chegou a voar 220 horas num único ano. É certo que ele não aprendeu muito mas... (acabo de perder o emprego).

Discutir horas de experiência exigi uma reflexão sobre a qualidade dessas horas. Um piloto agrícola que voou no garimpo, lançou pára-quedistas, rebocou planadores pilotando diversos tipos de aeronaves é muito mais safo que um aviador acostumado com o ritual da aviação pesada. Compará-los é covardia. Haverá um tempo próximo que a tecnologia irá suplantar a destreza desses aviadores burocráticos, porém enquanto isso não acontece sorte das companhias aéreas que optam pelos aviadores de “qualidade”.

Outro ponto é a máxima sobre os pilotos bons de “pé e mão”, aqueles que fazem miséria com determinadas aeronaves, mas se revelam negligentes e profundos desconhecedores dos conhecimentos fundamentais de: meteorologia, navegação, conhecimentos técnicos, regulamentos de tráfego aéreo, teoria de vôo e evidentemente doutrina de vôo. 

Continuando sobre as “máximas” existe uma que diz: a decolagem depende do avião e de um pouco de sorte, enquanto o pouso depende exclusivamente do piloto com ou sem sorte. O pouso de uma aeronave é que vai definir a qualidade do vôo em qualquer circunstancia, por isso a quantidade de pousos é um excelente balizador dessa experiência. Dominar uma aeronave não é uma ciência exata e depende da sensibilidade de cada um. O talento do aviador é que vai diferenciá-los, pois é possível a formação de um tocador de violão que dependendo do seu talento pode se tornar um “violonista”.

Na própria aviação desportiva descobriremos que determinadas maquinas “experimentais” exigem muito mais do piloto do que aviões homologados e seriados. A instabilidade de alguns ultraleves aguça e treina esse piloto de maneira que vai facilitar a condução das maquinas maiores.

Outro bom parâmetro para avaliar a experiência do aviador é a sua vocação acrobática. Um piloto que fez o curso, ou mesmo experimentou o vôo invertido leva uma grande vantagem sobre os demais, principalmente quando em condições emergenciais. O vôo acrobático fica muito próximo do vôo critico pois a aeronave é usada nos seus limites e quase todos seus sentidos exercitam prontidão. O nosso bicampeão mundial de Formula 1 Emerson Fittipaldi, disse algo que nunca esqueci: “confio mais no motorista concentrado que dirigi a 200 km por hora, do que o disperso que anda a 60 km/h pensando na morte da bezerra.” 

O Cmte “Lili” Souza Pinto dizia: bom piloto é aquele que tem o número de pousos igual ao de decolagens. É uma verdade mas, talvez um pouco simplista. Certamente verdadeira se considerarmos que ele voou na VARIG e lá, na aviação comercial, decolar e chegar em segurança é o que interessa às companhias.

Pilotos de prova muitas vezes estão devendo alguns pousos. Serão eles “maus pilotos”?

Na luz desse critério eu sou uma “Mike Echo Romeu Delta Alpha” de piloto, pois já estou devendo 12 pousos.

No final, a conclusão que chego é de que a aviação, como a medicina, possui suas “especializações” e você terá então pilotos experientes ou não em cada uma delas. As avaliações de experiência deverão ser feitas tendo em vista o número de horas voadas no tipo de vôo em questão, embora um vôo de avaliação seja a melhor maneira de se saber se o candidato é um “piloto experiente” ou apenas “acumulou muitas horas de vôo”.

 

 

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