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Cronicas


UM TRASLADO ASSUSTADOR

Esta viagem tinha tudo para dar errado. Já começara às avessas. Na véspera de embarcar para os EUA descobri que meu CHT estava ven¬cido. Corri ao Serac e consegui uma prorrogação. Aí eu não achava meu passaporte. Por sorte minha esposa encontrou-o junto aos seus docu¬mentos. Até agora não sei como foi parar lá.

A minha "pasta de viagem" não foi encontrada. Nela guardo todo o material de navegação, General Dec1aration (várias cópias), en¬dereços e nomes de hotéis, etc. Teria que comprar tudo lá.

Finalmente cheguei a Orlando após uma ótima viagem no vôo 766 da Transbrasil e encontrei meus amigos que me aguardavam para, juntos, escolhermos dois helicópteros que seriam importados e equipariam o Táxi Aéreo que estamos criando em Resende.

O "Tike" lá de ltu, que contratou-me para levar o Christen Eagle para o Brasil, fez contato comigo e acertamos um encontro em Fort Lauderdale após o Sun 'n Fun.

O avião estava pronto para a viagem. Eu não.

Corri para comprar os coletes (depois do banho n'água com o Pawnee não viajo com menos de dois), GPS também não tinha (não achei o Sílvio para pedir o dele emprestado). Comprei um da Lowrance. É o melhor que existe mas eu ainda não sabia usá-lo. Material de navegação não comprei. O GPS tem todas as informações e eu con¬fiava nele.

À noite planejei a navegação meio na correria (a primeira etapa foi bem feita) e fui dormir pois já estava já bastante cansa¬do, tinha tomado "todas" e o dia seguinte seria puxado.

Acordei bem cedo e fui logo verificar a meteorologia: abri a janela do quarto. O teto estava baixo, mas em compensação a visibilidade também era ruim. Nada preo¬cupante pois o avião estava todo equipado: altímetro, velocímetro, RPM, pressão e temperatura do óleo, VHF, transponder e o meu GPS Lowrance, o melhor que existe.

Tomei um café rápido, fechei a conta do hotel e em pouco tempo estava preenchendo meu plano de vôo para passá-lo à FSS. Isto feito, avião abastecido até o talo (três horas de autonomia), parti¬da, aquecimento, cheque dos magnetos (queda um pouquinho excessiva no ESQ mas o DIR normal), posição e decolei para uma etapa de 2:30.

O rádio não funcionava bem. Mal dava para entender a 1WR. Quando passei para o controle então, não entendi mais nada (parecia que falavam inglês). Aí desliguei o rádio pois o ruído de fundo estava me per¬turbando e eu necessitava concentrar-me na navegação.

O teto variava entre 1.000 e 1.500' e a visibilidade oscilava entre "não ver nada" e "distinguir alguma coisa". Pensei em voltar mas "eu tinha que chegar" ao Rio em cinco dias, e prossegui. Passei Bimini um pou¬quinho atrasado em relação à estimada. Deu prá ver entre as nuvens a ilha que eu conheço bem. Se a sorte me ajudar, pensei eu, o vento vai deixar de me atrasar nesta perna pois eu mudei o rumo em 20 graus.

Calculei a minha VS (velocidade no solo) ao passar Bimini e estava dando 10 kt menos do que a VI. O GPS até ali não tinha me aju¬dado muito pois, como não sabia usá-lo, e esperava fazê-lo na primeira perna, estava reduzido a um rumo e uma distância.

Por ter passado em Bimini, na vertical mas atrasado, deduzi que o vento estava de proa nesta perna e que viria da esquerda na próxima, pois meu novo rumo era maior. Assim, coloquei uma proa 32 menor do que o rumo e rezei para achar Stela Maris dali a duas horas de vôo.

Se tivesse pensado direito, teria pousa¬do em Bimini para aguardar uma melhoria no tempo.

Uma hora depois de Bimini, me encon¬trei com o GPS. Estava ligeiramente à esquerda da rota (3º fora correção demais para o vento, ou ele mudara).

A estas alturas o teto já tinha baixado para uns 300' com alguma chuva forte na rota e que me obrigava a vários desvios.

Chequei o tempo para o destino e vi que ainda estava longe. Conferi a VS e estava bem menor do que na primeira perna. Rechequei tudo e senti um frio na espinha: a minha estimada em Stela Maris era as llh05 e eu havia decolado as 8 horas com uma autonomia de 3 horas. Reduzi o motor para 20 pol e a mistura até a RPM cair. Nesta altura faltavam 20' para o destino.

À minha frente surge "aquela" cortina de chuva. Calculei que para desviar perde¬ria uns 4 a 5 minutos. Resolvi encarar. Sem horizonte artificial, dentro da chuva e sobre o mar, estava "como o diabo gosta". Conseguia a muito custo manter o vôo nor¬mal. Variava a altura pois não tinha "climb" para indicar a "tendência". Ainda bem que treinei muito o vôo por instru¬mentos sem utilizar o horizonte artificial, quando pilotava no garimpo.

A visibilidade depois da chuva ficou ruim e o teto cada vez mais baixo. O GPS "dizia" que a pista estava à frente e a três minutos de vôo. Eu voava a 250 pés. A autonomia, teoricamente, já acabara.

Eu estava nos "descontos do 22 tempo", operando na "margem de segurança" que nosso anjo da guarda reserva para si. Afinal ele está no mesmo barco, digo, avião.

Pelo GPS faltava 1 minuto quando o motor tossiu e parou. Eu não via nada para a frente e abaixo havia uma camada de "stratos". No desespero empurrei o manche à frente para acabar logo com o "sufoco".

Senti então um baque e bati com a cabeça em algo duro.

A Gina, minha mulher, acendeu a luz e me encontrou de pé, tentando achar a porta do quarto.

Acordei suado e, olhando o relógio, vi que já estava na hora de levantar pois o Vôo 766 da Transbrasil para Orlando saía as 8h30 e já eram 5h30 da manhã.

Feliz por ter sido tudo um sonho e de não ter cometido tantas "asneiras", fui tomar um banho e trocar de roupa para viajar, afinal havia um Christen Eagle para ser apanhado em Fort Lauderdale.

Cheguei aos EUA e desencontrei-me com o "Tike". Acabei voltando de Transbra¬si!. Será que foi simplesmente um sonho ou foi "premonição" ? Isto eu nunca saberei.

 

 

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