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Cronicas


QUEM NÃO PRESERVA SUA HISTÓRIA..... NÃO MERECE O FUTURO

Um dia, logo que cheguei ao DAC nos anos 80, um funcionário civil do qual, infelizmente, esqueci o nome, procurou-me com um presente. Tratava-se de uma caixa contendo os CM-Certificados de Matrícula e os CA-Certificados de Aeronavegabilidade das cem primeiras aeronaves registradas no Brasil.

Explicou-me que, quando trocaram o layout e novos certificados foram emitidos, recebeu a ordem de jogar no lixo aquela “papelada velha”. Reuniu os certificados numerados de 01 a 100 e os guardou como lembrança. Estava me dando de presente pois sabia do meu apreço pela história e sua preservação.

Fiquei com aquela caixa guardada, após ter admirado um por um dos documentos, até que um dia, vendo que no ARGS-Aeroclube do Rio Grande do Sul o Cmte Machado reunia documentos e fotos históricas, entreguei-lhe a caixa. Lembro que falei pra ele:-Não estou doando, apenas deixando aos teus cuidados. Ficará aqui até o dia no qual eu deixar de admirar o belo trabalho que vocês fazem pela aviação. Nesse dia me darei o direito de tomar posse dos mesmos novamente.

Fiz isso porque queria repartir com outros a possibilidade de apreciar os documentos e conhecer aquelas máquinas que fizeram a história da nossa aviação civil.

Parece até castigo: a caixa simplesmente sumiu do armário do Cmte Machado. 

Isso é lastimável pois em cada um dos documentos havia uma foto da aeronave, no CM uma de frente e no CA outra de lado. Lembro ter visto uma aeronave desportiva estranha: um girocóptero constituído de uma fuzelagem de avião com um rotor, lembro do P-BAAA que, creio eu, foi o primeiro avião da VARIG, etc.

Espero sinceramente que quem estiver de posse desses documentos, um dia tenha a honestidade de devolve-los.

Nossa aviação desportiva já tem uma bela história e muitas das peças que fizeram essa história estão se perdendo. Planadores antigos ainda existem porque em alguns clubes existem pessoas que se preocupam com esta preservação mas, mais uma vez, infelizmente, são poucos os que tem esse tipo de sentimento.

Deveríamos tê-los todos reunidos num museu, junto com documentos e outras peças históricas. 

A ABUL já enviou um ofício ao MUSAL-Museu Aeroespacial, sugerindo a criação de uma Sala do Aerodesporto, mas ainda não obtivemos sucesso.

O Aeroclube do Brasil foi fundado em 14 de outubro de 1911, somente cinco anos após o vôo histórico de Santos Dumont em Paris, e faz parte do passado de nossa aviação. Recentemente vi alguns dos muitos documentos históricos de seu acervo que ainda existem graças à abnegação de alguns de seus antigos sócios. 

Na Ata de Fundação do AeCB, por exemplo, se pode ver a lista dos nomes ilustres de seus sócios fundadores. Na Ata da terceira Assembléia realizada, podemos ver a nomeação de uma comissão que ficou encarregada da escolha do local onde seria construída a primeira pista de pouso no Brasil. Lendo outros documentos se descobre que a Fazenda dos Afonsos foi o local escolhido e que lá foi apartado um terreno de 1000 x 1000 m para esse fim.

Lá estão, guardados em uma sala não climatizada e sem um “tratamento” adequado à conservação que merecem, documentos que contam o nascimento da aviação brasileira, não só da civil mas também da aviação militar pois, se vocês não sabem, os primeiros pilotos do Exército Brasileiro e da Marinha, foram habilitados pelo AeCB, naquela época chamado de Aeroclube Brasileiro e representante do Brasil perante a FAI-Federação Aeronáutica Internacional.

O AeCB não dispõe de verba para zelar por esse patrimônio que é de todos nós, pilotos, mecânicos e amantes da aviação.

Será que conseguiríamos alguém ou uma empresa que “banque” esses custos de manutenção dos documentos através de um patrocínio?

O ideal seria tê-los num museu público onde todos os interessados pudessem ter acesso aos mesmos. Infelizmente o MUSAL não se interessou.

Sem reverendar o passado, será que temos direito a almejar um futuro para nossa aviação???

 

 

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