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Acidentes


SAÍDA DA PISTA COM UM T6 EM ITAPARICA

Traslado dos T6 da Esquadrilha Oi desde Terezina, com escala em PICOS-PI , até Salvador-BA onde os aviões ficaram hangarados no AC da Bahia no Aeródromo de Vera Cruz localizado na Ilha de Itaparica.

Voamos cerca de três horas desde o abastecimento no interiorzão do Piauí, mais precisamente, na cidade de Picos. Duas horas no solo sob num sol escaldante reabastecendo as aeronaves e decolamos para levar as máquinas que seriam guardadas no hangar do Aeroclube por duas semanas, aguardando nossa próxima apresentação que seria na Costa do Sauípe, um pouco ao Norte de Salvador.

Chegamos cansados da viagem lá pelas três horas da tarde. Como sempre o vento de través pela direita. Fizemos uma passagem sobre o hangar e o Edo me escalonou para a direita. Na perna do vento comandamos o trem embaixo e logo o flap. Laerte e eu mantivemos a perna do vento enquanto o líder girava a perna base. Logo depois o Laerte também me deixou e fiquei só na perna do vento, checando o travamento do trem, visualizado sobre cada uma das asas. Girei base e caprichei na aproximação para tocar logo no início da pista. O toque foi normal e mantive a reta segurando a cauda no alto pela aplicação de “manche à frente” até que a velocidade caiu e tive que baixar a cauda. Baixando a cauda cantei o “pouso controlado” para a esquadrilha e aí o LDO guinou para a direita, apesar do comando de “full” freio e pedal para a esquerda.

Saindo da pista, logo após os 3 metros de grama vislumbrei a vala de drenagem que lá é muito bem feita, construída com ½ manilhas de cimento. “Vi” o T6 pilonando quando sua rodas caíssem naquela vala que tem, seguramente, mais de um metro de largura e mais de cinqüenta centímetros de profundidade. Inexplicavelmente o “bichão” passou pela vala incólune. Aí me animei e voltei a “brigar” com ele novamente. À nossa frente apareceu a cerca que circunda o aeródromo, a não mais que dez metros de distância. Não pensei duas vezes e enfiei o pé direito no freio, comandando um “cavalo de pau”. A asa passou a um metro da cerca e o LDO parou após girar noventa graus.

Cortei o motor, me desamarrei e desci para ver o estrago. Aí lembrei que o Fernandes, nosso “Anjo da Guarda”, viajava comigo na nacele traseira. Ele já estava do lado de fora da aeronave se apalpando e se examinando para saber se havia se quebrado ( pelo visto ele não está muito acostumado a estes incidentes).

Por incrível que pareça o avião, que mais parece um trator, estava inteiro.

Chegaram o Edo e o Laerte que deixaram seus aviões no pátio, trazidos pelo Marques, Presidente do AC da Bahia. Ninguém acreditava no que via. O avião cruzou a vala devido a uma elevação no terreno existente antes da mesma e que o fez saltá-la, foi nossa conclusão.

Eu não entendia o que tinha acontecido pois fiz o pouso como todos os demais até então. Não entendia também as marcas dos pneus na pista pois a da bequilha mostrava que a mesma arrastou lateralmente na pista.

A gozação em cima de mim foi terrível. O Edo não perdoou e pegou pesado.

Providenciamos um trator para rebocar o avião para o hangar. Antes tivemos que “aterrar” a vala para passa-la com o trator e com a aeronave.

A bequilha estava travada a noventa graus e tivemos que soltá-la antes.

Passada a vala, dei partida e taxiei o LDO para o hangar, utilizando-me apenas dos freios.

No dia seguinte o Fernandes foi para o hangar fazer uma inspeção e descobriu que a perna do trem direito havia empenado ligeiramente e que deveria ser trocada mas o mais importante, descobriu também que um pino dentro da bequilha ( que a mantém alinhada) havia quebrado e que, provavelmente teria sido na hora em que a bequilha tocou na pista pela primeira vez ( o cizalhamento já vinha ocorrendo ha mais tempo, constatado pela cor do material do pino que já mostrava corrosão em 95% de sua área).

Nesta hora a bequilha atravessou e aí, ninguém segura um T6 na pista com a bequilha travada atravessada.

Meu “ego” tomou novo fôlego após esta constatação. Confesso que já estava MUITO preocupado. Mesmo tendo convicção de que fizera tudo certo, eu saíra da pista sem uma explicação aparente. Se pelo menos eu tivesse errado e soubesse o que errara seria simples: não repetiria mais aquele erro. Agora tinha uma explicação.

O Fernandes ficou em Itaparica consertando o T6 e nós voltamos para casa. 

Duas semanas depois estávamos novamente lá para a demonstração na Costa do Sauípe que seria a tarde. Pela manhã fomos fazer um vôo com repórteres e, no pouso, quase repito o incidente. Desta vez, após pousar, baixar a bequilha, freiar o avião, parar na lateral a noventa graus com a pista para deixar o líder passar, dei motor para acompanha-lo e não conseguia andar para frente. Fiz dois 360 graus sobre a roda direita sem que ela se movesse um centímetro sequer.

Cortei o motor ainda sobre a pista pois não conseguíamos mover o avião. Fernandinho levantou no macaco, tirou a roda direita fora e vimos que a “lona de freio” nacional que havia colocado, estava derretida e colada no cubo.

Isto aconteceu cinco metros à frente do ponto onde na outra vez eu sai da pista.

Imaginem como eu ficaria se a roda tivesse travado com o avião ainda em movimento! Ele teria saído da pista no mesmo local onde saíra na vez anterior.

O Edo ainda me gozou:- se não víssemos este freio, você nunca mais teria coragem de entrar num T6.

Depois daquilo, consertamos o freio e nos próximos vôos não freiei mais a aeronave. Vou continuar sem usa-lo até que cheguem as “lonas” importadas, iguais a que tenho na roda esquerda.

 

 

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