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Acidentes


POUSO SEM TREM SEAWIND SANTAREM

O PT-XDC foi vendido para o Rolf Tampke lá de Santarém-PA. 

O Garrido colocou-o a venda quando, durante o treinamento lá em Americana-SP, na primeira decolagem feita por ele, já lá pela quinta ou sexta sessão de treinamento nas quais eu decolara e pousara, saímos da pista.

Ele “cristalizou” nos comandos quando o XDC começou a sair para a esquerda no inicio da corrida de decolagem. Eu tinha pouco tempo de vôo no assento da direita. Quando ele engrenou para a esquerda, enfiei o pé no freio direito ( não tem comando de bequilha) mas a força foi tal que a mangueira de fluido hidráulico saiu do “burrinho” e o avião saiu da pista. Ao tentar reduzir a manete de potência onde estava a mão dele, acabei baixando o leme d’água e o motor ficou a pleno. Paramos num barranco que subimos com a roda esquerda.

O Garrido não tinha a experiência anterior necessária para encarar uma máquina complexa como essa pois apenas voara ultraleves e mais as horas no aeroclube para tirar o PP.

Eu sabia que seria trabalhosa a missão de deixá-lo pronto para operar com segurança a sua nova aeronave. Não tinha nem idéia de quantas horas de vôo seriam necessárias. Estava diante de um “fato consumado” pois ele já era o proprietário da aeronave que mandara construir, por duas vezes por sinal, e só me restava ajudá-lo.

O Rolf, alemão que reside no Brasil onde é empresário nos ramos de comercio de combustíveis e turismo, me contratou para lhe dar instrução de vôo para a adaptação à nova aeronave.

Ele terceiriza a distribuição de gasolina de aviação da BR em Santarém, Boa Vista e outros aeroportos, alem de ter uma agência de Turismo e um barco para passeios fluviais, é casado com uma paraense de Alter do Chão e pai de um lindo casal de crianças.

Por necessidades nos seus negócios, utilizava-se de uma aeronave Corisco mas quis trocar pelo anfíbio, decisão lógica para quem voa na Amazônia, repleta de rios e carente de estradas, apoio natural para um pouso de emergência.

O XDC estava em Americana-SP e fui lá buscá-lo, pousando em Jacarepaguá. Daqui decolei para Palmas-TO para abastecimento e segui para Santarém-PA.

O Corisco do Rolf já havia sido vendido e o Seawind ocupou seu lugar no hangar da Áquila Táxi Aéreo. Eu fiquei hospedado na casa do Rolf.

Devido à posição do motor no alto do estabilizador vertical e do trem de pouso principal bem recuado, ao ser aplicado o motor para decolagem, é gerado um momento picador muito forte e que “enterra” a bequilha. Como esse efeito é bem menor no Corisco, o Rolf teve que adquirir o hábito de decolar com manche atrás para aliviar a bequilha. Acontece que, à medida que aumenta a velocidade, o piloto tem que ir cedendo o manche para manter a bequilha baixa ( o ideal seria que ficasse a 1 cm da pista) para evitar um aumento do ângulo de ataque antes de adquirir a velocidade de decolagem pois isto aumentaria a corrida no solo.

A bequilha do Seawind é frágil devido à necessidade de ser leve e no pouso deve ser mantida fora do chão enquanto a velocidade for suficiente para dar atuação ao profundor no comando da arfagem. 

Esses dois procedimentos de alívio da bequilha (decolagem e pouso) são válidos e recomendáveis para qualquer aeronave de trem tricíclo, pricipalmente quando operando em pista de piso irregular.

Como esta prática não é ensinada nas escolas de pilotagem, muitos pilotos forçam suas bequilhas desnecessariamente chegando ao extremo de, no pouso, tocarem “três pontos”, ou seja, o pneu da roda da bequilha toca o solo junto com os pneus das rodas principais, isto quando não erram o pouso e tocam com o pneu da bequilha antes dos principais.

Em todos os pousos a aeronave deve tocar o solo com seu eixo longitudinal perfeitamente alinhado com o eixo da pista pois seus trens de pouso não são dimensionados para receber cargas laterais. Alguns aviões modernos não seguem essa regra e são projetados para, num pouso com vento de través, tocar desalinhado, mas não é o caso do Seawind cujo trem de pouso frágil será danificado se receber esforços laterais.

Esses itens acima foram os tópicos que me propus a treinar com o Rolf para deixá-lo apto a operar sua máquina em terra. Na água, que requer maior finesse e técnica um pouco diferente tanto na decolagem quanto no pouso, seria objeto de novo treinamento para quando ele tivesse completo domínio da aeronave nesses procedimentos na terra.

A decolagem ele “pegou” nos primeiros vôos. No vôo em si ele já tinha experiência anterior e não havia problema. Concentrei-me então no pouso que tinha que ser alinhado e segurando a bequilha pelo maior tempo possível.

Fazíamos toques e arremetidas em Santarém diariamente, com uma sessão pela manha e outra a tarde. Nos fins de semana ainda arranjávamos tempo para fazer churrasco na sua chácara na beira do Rio Tapajós onde velejávamos com seus Hobby Cats.

Faltando muito pouco para eu considerá-lo “solo” e voltar para casa, estávamos lá pelo quarto ou quinto pouso, alongando a perna do vento, ele me pediu para ver se a aeronave que tomara posição para decolagem já iniciara a corrida. Lembro que ao olhar para trás ele falou trem e flaps baixados e iniciou a curva base informando para a TWR.

Concentrei-me em observar se ele alinhava o avião corretamente na final e se faria o pouso segurando o nariz quando realizamos o pouso sem trem. Embora não estando nos comandos, me senti responsável pois assumira a função de instrutor. Ele já era PP com CHT em dia e assinara a Notificação de Vôo mas isso não amenizou meu sentimento de culpa. 

Avião no macaco, trem embaixo e táxi para o hangar. Novamente uma quilha gasta ao roçar no asfalto, foi a única conseqüência.

 

 

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