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Acidentes


CAVALO DE PAU COM O SHOW CAT EM MENDOZA

Voltando de Santiago do Chile para onde voara com o Show Cat da Marta e do Pedrinho Melo, voei sobre os Andes para pousar em Mendoza na Argentina. Passei o Cristo e desci pelo vale que desemboca naquela bela cidade Andina. Para fazer o caminho inverso e passar o Cristo, na volta, tive que voar no rumo Norte com um vento de proa que me dava uma velocidade no solo de 37 kt.

Voei até a entrada do vale que leva à passagem pelo Cristo Redentor, entrei por ele mas, mesmo assim, cheguei na cara do Cristo abaixo da altura do mesmo.

Nesta hora a velocidade no solo já era de 100 kt pois, com a mudança de proa, o vento passou a entrar pela cauda.

Com o vento “encanando” no vale e batendo na montanha, era certo que haveria uma forte corrente ascendente na “cara “ do Cristo. Assim eu esperava. A corrente era necessária para me dar a altura que faltava para passar a montanha. Por via das dúvidas voei próximo às montanhas à Boreste do vale para, caso não surgisse a ascendente, ter espaço para fazer a curva e retornar.

Felizmente ela estava me esperando e, na horta certa , senti a forte pressão de baixo para cima, resultado da forte corrente que me jogou a 13 mil pés bem na frente da montanha.

Naquela hora, já “fora do sufoco”, consegui apreciar a paisagem que estava magnífica e bem diferente da vinda: nas duas últimas noites havia nevado bastante e as pedras que formam as montanhas estavam todas vestidas daquele branco que vemos nos cartões postais.

Segui pelo vale na direção Sul. A velocidade agora era de 110 kt pois, além do vento encanado que entrava pela cauda, ainda “ganhava” alguma energia nas “ondas” à sotavento das montanhas, o que me permitia voar com uma atitude picada.

Fui dosando a atitude com uma ligeira razão de descida de forma a chegar em Mendoza na altitude de tráfego.

Fiz a perna do vento já curtindo o calor do ar que contrastava com as frias temperaturas que enfrentara lá em cima. Girei a perna base , final e toquei. Os pés estavam meio entorpecidos pelo frio, apesar da bota forrada e das meias.

Correndo na pista sobre as rodas principais ( pouso de pista) o ShowCat começou a sair levemente para a esquerda. Dei um “cutuque” no freio direito e ele voltou mas passou um pouquinho do alinhamento da pista. Ai fiz pressão no freio esquerdo e, para minha surpresa não havia resistência nenhuma à minha pressão: estava sem o freio esquerdo. Com o leme todo aplicado , tentei segura-lo na pista mas não foi possível e lá me fui eu pela lateral direita da pista de Mendoza, em meio aos buracos e “cocurutos”. Para piorar a situação havia uma vala enorme que teimava em convergir com a nossa rota. Se entrasse na vala, com certeza quebrava o avião inteiro. Ai comandei um “cavalo de pau” pisando no freio direito e dando pedal à fundo.

Parei em meio à uma nuvem de poeira. Aparentemente o avião estava inteiro. Tentei taxiar mas não conseguia: o danado cismava em girar para a direita e eu não tinha o freio esquerdo para segura-lo. Depois de duas ou três tentativas desisti e aguardei os carros de bombeiro e a ambulância que vinham com sirene aberta em desabalada carreira.

Por meio de gestos pedi-lhes que empurrassem a cauda para que eu atravessasse a pista, de forma a não interdita-la, o que foi feito.

Já na via de acesso ao pátio de estacionamento, devido à dificuldade em conduzir a aeronave por seus próprios meios, mesmo com a ajuda dos “hermanos” que empurravam a cauda, cortei o motor e desci da mesma. A esta altura do campeonato, já suava por todos os poros. A minha “indumentária” estava incompatível com o clima reinante que era de muito calor.

Tirei o Blusão de vôo, o pullower, abri a parte de cima do macacão de vôo e tirei o outro pullower de lã., a camisa de “gola roule”, a camiseta de algodão e só fiquei com a camiseta de polipropileno, colocando novamente o macacão. Da cintura para baixo fiquei como estava: com o macacão de esquiar na neve, o macacão de vôo, a ceroula de algodão e a ceroula de polipropileno.

Luvas eu usei três uma em polipropileno, a outra em “nomex” e a terceira daquelas de esquiar na neve, onde os dedos entram unidos e que eu tirava para poder acionar o GPS e os interruptores do rádio.

Empurraram o avião até o estacionamento e me levaram à administração onde o Oficial da Força Aérea Argentina, administrador do aeródromo, me conseguiu o apoio do Comandante de uma unidade aérea que possuía, entre outros, uma esquadrilha de Sukhoys acrobáticos.

Com o mecânico fui ao avião e ele constatou que fora total ausência de fluido hidráulico que ocasionara a falha do freio.

Concertado o vazamento, reposto o fluido e drenada a linha, estava pronto para seguir viagem, o que fiz, decolando lá pelas duas horas da tarde.

Laboulaye era meu ponto de reabastecimento caso não conseguisse chegar antes do por do sol, o que acabou acontecendo.

Dei duas voltas sobre a cidade para avisar o Artaza que estava de volta e pousei. Estava um belo fim de tarde e parei novamente em frente do hangar do Aeroclube.

A noite fomos jantar juntos. No dia seguinte a meteorologia estava péssima. Buenos Aires e a rota estavam com forte nevoeiro e acabei abortando a ida naquele dia.

Ai, já que estava parado mesmo, fui para a cidade e comprei carne para fazer um “assado” no hangar do Aeroclube de Laboulaye.

Enquanto assávamos a carne, pousou um dos aviões do Beraza com dois pilotos que eu já conhecia. Pernoitariam em Laboulaye e estavam a fim de festa. Foram até a cidade e voltaram com mais carne e cerveja. Ficamos no hangar até tarde da noite, comendo, bebendo e contando histórias.

Decolei no dia seguinte cedo e cheguei a Buenos Aires onde fiz a burocracia e decolei com a proa de Melo no Uruguai, apesar do mau tempo anunciado.

Voei até lá, literalmente desviando das árvores, tão baixo era o teto. Na verdade só cheguei porque na vinda “decorei” a rota e tinha a certeza de que não havia nenhuma elevação no meu caminho.

Era uma frente que avançava célere em direção ao Rio Grande do Sul. E eu estava indo para lá!!!

Pousei em Melo, abasteci correndo e decolei antes que a danada da frente me alcançasse novamente. Eu saíra dela a umas 50 NM antes de Melo.

Finalmente pousei em P. Alegre para fazer a alfândega já no final da tarde.

No dia seguinte passei por Lajes-SC onde pousei para reabastecer. Dali para S. Miguel Arcanjo passei na vertical de Rio Negrinho onde fiz um pouso apenas para dar um abraço no pessoal do Aeroclube, Klaus, Karen, etc.

Entreguei o Showcat são e salvo para o Pedrinho em S. Miguel.

Mais uma missão cumprida.

 

 

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