logo

Acidentes


PERDA DE UMA PÁ DE HELICE DO STRATUS NO CEU

Voávamos o Stratus no CEU. Depois da quebra do trem na decolagem abortada por falha do motor, relatada anteriormente, insisti MUITO com o Miguel, o projetista e construtor, que havia alguma coisa errada na decolagem. Já que não era peso e balanceamento, talvez fosse a posição do motor. Mostrei-lhe isto acelerando até acima da velocidade de estol e, com o manche atrás, reduzi a potência. A aeronave saiu do chão completamente, voou alguns segundos e pousou em frente. 

Nesta época ofereceram ao Luis Fernando uma nova hélice de madeira. Lembro que chegaram a me consultar sobre a mesma mas como o “shape” parecia bom e ela já estava instalada, disse que a testaria em vôo. O máximo que poderia acontecer seria não dar potência necessária para decolar e eu abortaria a decolagem ou então ser ruim em cruzeiro e meu vôo era local.

Decolei sem problemas e em cruzeiro ela “rendeu” o suficiente para atingir a velocidade que já havia sido atingida com a hélice anterior ( o envelope estava sendo expandido aos poucos).

Decidimos mexer na posição do motor para diminuir a tendência de picar que dificultava a decolagem. Na época o Miguel saiu do projeto exatamente por discordar da hélice nova e quem faria os ajustes da posição do motor era um parceiro do Luis Fernando. 

Como de costume, fui para o CEU de motocicleta mas neste dia resolvi usar meu capacete de piloto de caça russo que ganhara para voar o Baby MIG como era chamado o MAI 890, um biplano acrobático. Normalmente eu ia com meu capacete de moto e no clube pegava na secretaria um capacete de vôo qualquer. Neste dia algo me fez modificar o hábito. 

O plano era medir a distância de decolagem com as várias regulagens que seriam feitas.

O ângulo do motor em relação à fuzelagem era alterado com a colocação de arruelas na fixação traseira de forma a baixar a frente do motor. A cada decolagem a distância percorrida era medida na pista e fomos adicionando arruelas enquanto a distância percorrida diminuía. Me contaram que o acidente ocorreu na sexta vez que eu decolava. Eu não vi nada e até hoje existe um “branco” desde a primeira decolagem até eu acordar na UTI cinco dias depois. Disseram que, quando dei potência máxima para decolar ouviram um estouro e viram o motor cair do berço. Correram para a cabeceira da pista onde a aeronave estava e conseguiram desligar o motor que ainda funcionava. Só então perceberam que eu estava com a cabeça aberta na testa, desmaiado e sangrando muito.

Fui levado para o Hospital Miguel Couto, de lá para o hospital Central de Aeronáutica e finalmente para a UTI do Hospital da Força Aérea do Galeão.

Devido à gravidade do meu estado, inclusive com risco de vida, meus irmãos vieram ao Rio, um de Porto Alegre e outro de Porto Seguro.

Fiquei no hospital uns quinze dias e tive muita sorte com a recuperação que não deixou seqüelas e com a cicatriz que ficou quase imperceptível. Como resultado do acidente e do tratamento após no qual passei um ano tomando anti-coagulante, fiquei afastado de qualquer bebida e com isto perdi dez quilos já recuperados nos anos seguintes. 

Assim que pude fui ao CEU ver a aeronave e entender o que acontecera. De concreto havia: ao dar potência o motor saiu do berço caindo na grama e uma pá da hélice me acertou a cabeça que só não foi partida ao meio porque uma parte metálica da viseira do capacete russo parou a hélice antes disto. Assim mesmo a testa foi quebrada e um grande buraco ficou aberto nela. Devo minha vida àquele capacete.

Examinando os pedaços da hélice, verifiquei que uma das pás desprendeu-se na raiz exatamente no lugar onde fizeram três furos de cinco milímetros de diâmetro para colocar chumbo e fazer o balanceamento axial da hélice. Não quis nem saber quem foi o idiota que fez isto pois o mal já estava feito e não havia como eliminar o sofrimento que já havia tido.

Nestas horas se conhecem as pessoas: todas as despesas com o acidente e após foram pagas por mim, inclusive o táxi até o Miguel Couto e a ambulância entre os hospitais.

 

 

logo