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Acidentes


VELA STRATUS CEU

Só existe uma maneira de alguém ficar milionário na ou com a aviação: deve começar bilionário. Assim mesmo conheci várias pessoas que viram na aviação uma forma de ganhar dinheiro. Umas conseguiram alguma coisa mas muitas fracassaram. A maioria que se dedica, o faz por um ideal ou por teimosia.

Na década de 80 convivi com alguns deles sendo o Luiz Fernando o mais peculiar: envolvido com galpões de armazenagem resolveu fabricar um ultraleve que fosse o mais moderno em desenho, performance e materiais.

Contratou o Miguel Rosário e deu as diretrizes do que deveria ser o projeto. Me contratou para assessora-lo e para voar o protótipo. 

O Miguel projetou o Stratus. Coisa moderna, nunca antes vista. 

Como dizia o Luiz quando discutíamos alguma coisa relativa ao projeto e à aeronave:-Albrecht, você conhece muito em aviação mas disto aqui tu não entendes nada. Isto é revolucionário. Ele esteve nos EUA e teve uma entrevista com Martin Holmann conhecido no meio aeronáutico por ser um aerodinamicista “expert” em materiais compostos. Voltou de lá “sabendo tudo”.

A aeronave era realmente “futurística” mas apresentava uma característica que dificultava sobremaneira que fosse “acertada”: era “triwings”. A maioria das aeronaves tem duas superfícies sustentadoras: asa e empenagem horizontal ou asa e canard ( aquela asinha na parte frontal da aeronave). Esta tinha a asa, a empenagem horizontal e o canard. Tente equilibrar uma régua sobre dois apoios e verá como é fácil. Agora tente faze-lo sobre três apoios e verá a grande dificuldade que encontrará.

Uma aeronave toda em material composto leva algum tempo para “nascer”. Moldes tem que ser feitos e refeitos até se chegar à forma correta. Imagine partir de um desenho no papel e construir uma peça em “negativo”! A construção levou mais de um ano mas, finalmente o Stratus estava pronto. 

Uma aeronave tão diferente das que eu já havia voado me deixou mais apreensivo do que costumava ficar noutras ocasiões onde testei outras aeronaves. Pelo “jeitão” da máquina dá para se ter uma idéia do que será seu comportamento em vôo. As outras sempre se pareciam com alguma coisa que eu já havia pilotado mas esta era diferente e não havia literatura a respeito do comportamento de uma aeronave com canard e profundor.

Pelos cálculos do Miguel a velocidade de estol não seria muito alta mas mesmo assim pedi autorização para fazer os testes lá no Campo dos Afonsos onde as dimensões da pista me davam certa tranqüilidade: pelo menos não haveria preocupação nas decolagens e aproximações e eu poderia testar a estabilidade tirando do chão e tendo ainda muita pista para pousar em frente caso se revelasse “impilotável”.

O pessoal do MUSAL foi sensacional conosco apoiando com o empréstimo de espaço num dos hangares de manutenção. Os nossos saudosos amigos Cel Jordão e Cel Braga e mais o Cel Mora que chefia o setor de manutenção do museu foram incansáveis no apoio moral e material.

Aeronave montada, abastecida, pesada e balanceada, pronta para a primeira corrida na pista. Faltava só colocar a parte superior da carenagem do motor. O Miguel já lidava com a carenagem a mais de uma hora e nada de conseguir encaixar e fixa-la no lugar. Nós tínhamos um horário limite para usar a pista de forma a não interferir com a operação das aeronaves militares da Base Aérea dos Afonsos e aí decidi voar sem a tampa da carenagem.

Meu plano era correr na pista, tirar do chão e “sentir” a estabilidade. Se estivesse normal, subiria para fazer um tráfego e voltar para pouso.

Corri pela pista 08 e fui acelerando até uma velocidade pouco acima daquela prevista pelo Miguel para ser a de estol do Stratus e comandei o manche atrás, manche que era no console central, e nada dele levantar o nariz. Quando a velocidade já estava uns 15 Kt acima finalmente o nariz levantou bruscamente mas, mesmo com o susto, consegui estabelecer um vôo nivelado a menos de dois metros da pista. 

Senti que os comandos atendiam bem e resolvi ganhar altura pois a pista já ficava curta para pousar.

Não deixei a velocidade crescer muito mas deu para sentir que a estabilidade em arfagem era crítica. Completei o tráfego pela esquerda e vim para pouso descobrindo que o planeio dele era muito bom e conseguindo realizar um pouso razoável, encerramos os testes em vôo por aquele dia. Na manhã seguinte teria mais.

Cedinho fiz minha segunda decolagem no Stratus, agora completo, com a parte superior da carenagem ajustada e instalada. A mesma dificuldade em sair do chão mas o Miguel jurava que o balanceamento estava correto e o nariz não estava pesado.

Estava a uns 300’ quando o motor perdeu potência. Por sorte eu usei toda a pista e iniciei a decolagem bem na cabeceira 08, assim, no meio da pista já estava voando, ganhando altura e curvando para a perna do vento, o que me deixou confortável para realizar o pouso com o restinho de potência que o motor fornecia. Estabeleci um vôo planado e girei uma base meio atravessada para chegar logo a pista onde pousei sem problemas. 

A causa da perda de potência foi a carenagem que gerou uma depressão nos carburadores. Eu já havia tido problema semelhante e a solução foi cortar o tubo que equaliza os carburadores e colocar cada ponta para fora da carenagem.

Com o avião na mão e já explorando o envelope dele, agradecemos o apoio do MUSAL e levamos o Stratus para o CEU para continuar os vôos. Brigávamos com a instabilidade na arfagem. Encontrar uma térmica em vôo era um sufoco pois o canard fazia o nariz subir violentamente e era uma briga para estabilizar num vôo em turbulência. 

O Luiz Fernando não se convencia da veracidade dos meus reportes e resolveu que ele voaria o avião. Com muito custo o convencemos que seria prudente que ele fizesse um vôo comigo para pegar o jeito do Stratus. 

No dia marcado para voar, quando cheguei no CEU ele já estava sentado na esquerda e com o motor acionado. Tomei posição na direita e ele foi para a pista, iniciando a decolagem. O cheque de motor ele disse já ter feito enquanto me aguardava.

Durante a corrida na pista o motor falhou duas vezes e eu interferi abortando a decolagem. Para não cair na lagoa, comandei um cavalo de pau que resultou na quebra do trem de pouso. Ele ficou furioso dizendo que não teria havido falha do motor. Deu partida e ele funcionou. Eu tinha certeza de que falhara e fui inspeciona-lo. Encontrei um dos dois cachimbos de vela solto da vela. As falhas devem ter ocorrido com os solavancos da aeronave na pista.

 

 

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