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Acidentes


CONDOR NA LAGOA DO CEU

Os ultraleves voavam por todo canto. A maioria dos pilotos já não era formada em avião como no início da atividade, quando só quem já sabia voar tinha acesso às maquininhas.A primeira legislação autorizava o vôo nos UL monoplaces para os portadores de CPD. Para voar UL de dois lugares exigia-se a Licença de PP. O vôo desportivo era praticado nos Sítios de Vôo e em alguns aeródromos pequenos. Nos clubes, as escolas formavam os novos pilotos. As fábricas vendiam muito. A atividade crescia a olhos vistos.

Todo este crescimento tinha suas razões. A primeira, a meu ver, foi a criação do CPD- Certificado de Piloto Desportivo.Quando escrevi a primeira IAC 3310 regulamentando o vôo das aeronaves ultraleves, tentei junto à Divisão de Habilitação que eles criassem uma Licença de PP mais simples para aqueles pilotos que desejassem apenas voar nos ultraleves. Ao mesmo tempo procurei o CEMAL pedindo que criassem requisitos mais brandos para a inspeção de saúde dos candidatos e o RAB-Registro Aeronáutico Brasileiro, para que simplificassem o processo de registro dos ultraleves recém surgidos. O mesmo foi feito junto ao Subdepartamento de Operações visando a simplificação do processo de registro dos pequenos aeródromos que estavam sendo criados para a operação dos ultraleves. Devido a sua baixa velocidade, os ultraleves não estavam sendo bem recebidos nos aeródromos onde operavam os “aviões de verdade”.

Não houve a menor sensibilidade por parte dos interlocutores e a saída foi criar tudo novo faxzendo da Divisão de Aerodesporto um “mini DAC”. Lá se emitiam os CPD, criados para os pilotos de UL, registravam-se as aeronaves com um processo sumário e autorizavam-se os registros de Sítios de Vôo. Ah! Os pilotos foram dispensados de exame médico já que o CEMAL não abrandou os requisitos e não tínhamos médicos na Divisão de Aerodesporto.

Na época fui procurado pelo então Cap BO Goulart que desejava implantar os UL no SALVAMAR. Depois de escrever um parecer favorável que foi aceito pelo Chefe do STE eles foram autorizados e fizeram a escolha do Condor fabricado pela Netuno na Ilha do Governador. Era muito parecido com os QuickSilver, inclusive pelo uso dos “spoilers” no lugar de ailerons. A diferença é que estes dispositivos eram comandados pelo manche e não pelos pedais como no concorrente. Tratava-se de uma aeronave hidro, equipada com flutuadores e sua operação de pouso e decolagem era na água.

Para formar seus pilotos os Bombeiros criaram um curso de ultraleves e o Goulart seria o instrutor, após checado. 

Naquela época os SERAC não estavam envolvidos com esta atividade desportiva e fui o único checador do SAC para ultraleves, balões e girocópteros durante dois anos. Aí fui fazer o cheque do Goulart.

Chegando ao CEU, fiz o brifim do vôo e fomos fazer a Inspeção Externa na aeronave quando constatei que só havia uma manete e ela ficava no lado esquerdo do assento esquerdo, ou seja, a aeronave não era adequada para o vôo de instrução e, conseqüentemente, para o vôo de cheque pois o instrudor/checador não tinha acesso à manete de aceleração do motor.

O Goulart era experiente em pilotagem pois além de ter muitas horas de vôo em ultraleves já havia sido Cadete da Aeronáutica antes de ser Bombeiro e havia uma certa urgência em iniciar logo a instrução dos outros Bombeiros. Tudo isto fez com que eu esquecesse a doutrina e conssentisse em fazer o vôo mesmo sentando na direita ( cheque de instrutor é ele que vai na direita) e sem acesso à manete.

A pilotagem do Goulart era perfeita e o vôo transcorreu normal até que lhe “paguei” uma pane de motor. Estávamos sobre a água e bastava aproar o vento para pousar, o que foi feito pelo “checando”. Na final para pouso, devido à água espelhada, ele começou a arredondar alto. Não tínhamos interfone e eu gritei para ele : -cede o nariz pois estamos alto.

Ele não reagiu e eu ainda tentei dar motor mas não consegui a tempo e demos uma bela “crashada” na água o que rompeu um dos flutuadores.

Saímos ilesos fisicamente mas com a moral “lá embaixo”. Levamos quase uma hora para arrastar o UL a nado até a margem( naquela época no CEU não existia a lancha de apoio que hoje está sempre a postos para uma emergência).

O maior risco foi de morrer com alguma infecção causada pela água altamente poluída que incidentalmente pudéssemos ter ingerido.

 

 

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