logo

Acidentes


QUASE COLISÃO COM UM TREM

Pelo que eu me lembro, esta foi a primeira emoção forte que tive na aviação. No Aeroclube de S. Leopoldo onde me iniciei nas artes da pilotagem em 1966, nada extraordinário aconteceu que merecesse atenção. 

Aluno da Escola Preparatória de Cadetes do Ar em Barbacena-MG onde entrei em 1967, Piloto Privado desde o ano anterior, era o único aluno que voava.

O Presidente do Aeroclube de Barbacena era o Sgt Raphael, figura simpaticíssima que me abriu as portas da entidade na qual pude fazer algumas horas de vôo enquanto estudava e aguardava passarem os anos que me separavam da Escola de Aeronáutica e dos vôos que me fariam um piloto militar. Afinal de contas, desisti de uma carreira na aviação civil ao conhecer a Esquadrilha da Fumaça numa festa no Aeroclube de S. Leopoldo e descobrir que era aquele o tipo de vôo que mais tinha a ver comigo.

O soldo de um aluno era menor do que um salário mínimo, se bem me lembro. Sei é que não dava para pagar nem uma hora de vôo. A mesada que vinha de casa era curta e aí, eu “rachava” o vôo com os colegas da Turma de 67 e também com alguns da Turma de 66 que queriam ter sua estréia no ar a bordo de um “poderoso” P-56 Paulistinha.

Nos fins de semana que eu não viajava para o Rio de Janeiro para visitar a namorada, ia para o Aeroporto com dois ou três amigos, abastecíamos o Paulistinha e voava com eles. Os mais abastados pagavam meia hora de vôo, os outros apenas quinze, dez minutos. Eu, por menos que fizesse, acabava voando uma horinha e curtindo o visual das cercanias da cidade, encravada na Serra da Mantiqueira.

Normalmente a aeronave usada em instrução já estava equipada com dois manches e meus “passageiros” podiam curtir a emoção de pilotar um avião pela primeira vez, afinal este foi o sonho que levou cada um de nós até aquela escola.

Num destes vôos, durante o táxi meu colega me alertou que atrás não havia manche. Falei para ele pegar o manche que deveria estar no bagageiro atrás dele e coloca-lo no lugar ( o manche é enfiado no suporte e normalmente leva um parafuso ou um pino). Já tomando a posição na pista, após o cheque antes da decolagem, ele colocou-o mas não conseguiu enfiar o pino, por sorte nossa.

Iniciei a corrida de decolagem e segurei a cauda baixa mais tempo do que o normal devido a um vento de través. Já com razoável velocidade levei o manche à frente para levantar a cauda e conseguir atingir a velocidade ideal de decolagem. Nesta hora senti o manche travado e alguma coisa me empurrando nas costas. Numa fração de segundos identifiquei o que acontecia: o manche havia sido colocado invertido, com a curva para a frente. Achei que não tinha pista para abortar a decolagem e gritei para ele retirar o manche ao mesmo tempo que dava uma puxada para trás a fim de libera-lo do encosto do meu assento. Felizmente meu amigo foi rápido e pude picar novamente antes que a aeronave saísse do solo em pré-estol.

Este não era meu dia de sorte, definitivamente. Ou era, não sei. É, foi de sorte sim pois do contrário eu teria tido meu primeiro acidente. Na segunda ou terceira decolagem do dia, meu passageiro pediu para fazer um vôo baixo numa fazenda, se não me engano. Botei o nariz embaixo e tirei o motor pra não embalar muito. Estava uma bela manhã de inverno e fazia frio, o suficiente para congelar o carburador e, para evitar que isto acontecesse, puxei a alavanca que abriria o ar quente do carburador. Perdendo altura avistei um trem aproximando-se perpendicular à nossa rota e resolvi passar baixo e dar um susto nos “mineirinhos” que certamente seriam seus passageiros e acabei de reduzir o motor. Já bem baixo levei a manete à frente para dar a potência necessária à retomada do vôo subindo e o motor engasgou. No puro reflexo levei à frente a alavanca que eu havia puxado no início da descida e o motor roncou firme novamente. 

Aí, refeito do susto, identifiquei a mancada que eu dera: ao invés de puxar o ar quente eu puxara a mistura. Os “mineirinhos” podem ter se assustado mas o maior susto foi meu.

Não lembro mais quem estava comigo mas se ele ler isto peço que entre em contato.

 

 

logo