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Acidentes


ULTRALEVE MIRAGE NO AUTODROMO DO RIO

O ultraleve já era uma realidade. Depois do Paul Gaiser e eu termos voado as asas motorizadas com decolagem no pé, o Patrick Bredel trouxe o primeiro trike, uma asa igual a nossa mas montada sobre um carrinho onde ficava o motor e o assento do piloto. Hoje os trikes são idênticos porém as asas tem maior performance e os motores são mais potentes. Na seqüência, o Carlos Luis Martins voou um weedhoper e o Mascarenhas um Condor, ambos importados. 

Em seguida chegaram os QuickSilver importados e logo substituídos pelos Microleve de fabricação nacional. O Mascarenhas começou na mesma época a fabricar os Condor aqui.

Nesta época eu estava no DAC, mais precisamente na Divisão de Aerodesporto que era chefiada pelo Rochinha , como era conhecido o Cel Av Rocha. Ele era da turma do Cel Av Berto que lhe apresentou seu irmão Rogério, um empresário que estava afim de investir nos ultraleves, última novidade no aerodesporto. 

Eu, desquitado, dividia a casa com o Paul Gaiser e morávamos na Gávea Pequena. Ele naquele tempo estava introduzindo o Wind Car no país mas também queria trazer o Mirage, um modelo de ultraleve que já possuía ailerons, mais avançado do que os QuickSilver e os Condor. O Rochinha apresentou o Paul ao Rogério e os dois trouxeram três kits para serem montados aqui. 

Eu acabei me envolvendo pois a montagem foi feita lá na nossa casa e diariamente eu convivia com os problemas enfrentados por eles. Havia um problema que para eles se apresentava como “insolúvel”: nem o Paul nem o Rogério sabiam pilotar aviões.

Me pediram e aceitei colaborar sendo o “piloto de provas” e fazer os primeiros vôos nas aeronaves por eles montadas. Assim me envolvi também na montagem do primeiro pois, afinal de contas, eu testaria a máquina.

Naquele início da década de 80 ainda não existiam muitos Sítios de Vôo e os UL não podiam voar nos aeródromos controlados. Aqui no Rio começou em Pedra de Guaratiba onde voavam os QuickSilver do Carlos Luis, Vieira Souto e Fernando Pinto e na Ilha do Governador onde o Condor do Mascarenhas voava com flutuadores.

O Rio Centro ainda não existia e a estrada que passa em frente era de terra. Deserta, podia ser usada como “pista” para nossos primeiros testes e foi lá que nos reunimos num domingo bem cedo, Paul, Rogério, Beti, sua esposa, e não lembro mais quantos outros.

A aeronave teve que ser parcialmente desmontada para o transporte e remontada no local, o que aconteceu por volta das nove horas da manhã. Nesta hora descobri que, na montagem, o cinto de segurança não havia sido colocado nos dois tubos laterais e não poderíamos faze-lo ali, na estrada. Resolvi que, como seria um único vôo, voaria sem o cinto e ocupei o posto de pilotagem que se constituía numa lona presa nos dois tubos laterais como se fosse uma maca.

Aí foi dada a partida no motor na base da “cordinha” que , puxada, fazia girar o motor como eram todos os motores de UL a dois tempos e antes da partida elétrica. No cheque antes da decolagem, acelerei o motor até 6500 RPM,enquanto alguns o seguravam pela cauda. Ele não era equipado com freios. Dei potência novamente e ele não passou das 3.500. 

Começou então uma briga do Paul com o motor que não aceitava regulagem. Com o sol a pino, verão, eu já sem camisa, apenas de sunga e tênis, suando às bicas, aceito uma sugestão, não sei vinda de quem: porque você não decola, já que na primeira acelerada o motor chega às 6500 RPM? Se lá em cima, quando mexer na manete o problema voltar (não dar mais do que 3500 RPM), você pousa.

A situação estava já exigindo alguma solução drástica: ou desmontava e levava pra casa ou voava, e eu decidi voar. Como a gente toma decisões erradas e abandona a prudência!Seguraram o bicho pela cauda, acelerei e gritei para que soltassem. 

No meio da corrida de decolagem alguma peça ( porca talvez) caiu do escapamento ( o motor ficava na frente e a hélice atrás) e rolou pelo banco me queimando a bunda.

Tirei do chão e iniciei uma curva à direita aproando o autódromo do Rio pois a estrada fazia uma curva de 90o logo à frente. Nesta hora, sem que eu movesse a manete, o motor perdeu rotação.

Nariz embaixo pra manter a velocidade e me preparei para pousar na lagoa, antes do autódromo.Tocaria uns dez metros antes do muro que o circunda. Nisto o motor ganhou potência e achei que dava para, pelo menos, evitar a água e pousar no autódromo. Embalei o que deu e puxei o manche atrás passando raspando o muro. Para quem conhece o autódromo do Rio, eu estava nesta hora onde hoje fica a pista de Kart que estava em construção.

A terra do aterro ainda não havia sido espalhada e existiam vários montes dela onde os caminhões a haviam despejado. Tentei achar algum espaço livre de montes de terra mas antes de atingi-lo meu trem de pouso tocou no topo de um deles e a aeronave enfiou o nariz no chão pilonando. No instante seguinte me vi de pé a uns três metros da aeronave ( onde ela tocou de nariz no chão) e a mesma ainda com o motor em lenta, de cabeça para baixo logo a frente.

Corri e cortei o motor e dei uma “inspecionada” pessoal para ver onde tinha me quebrado. Acreditem, não tinha nenhum arranhão. Na porrada fui “cuspido” por entre os tubos que estruturavam a “cabine” e não bati em nada, tendo caído de pé.

Meus amigos chegaram, esbaforidos, algum tempo depois. Tiveram que dar a volta no Autódromo para chegar ao portão. Estavam apavorados pois o que avistaram lá de fora foi a cauda do Mirage girando por cima. Não acreditavam que eu não tinha nenhum arranhão e queriam me levar a um hospital para ser examinado. 

Até hoje não sei qual era a pane do motor.

 

 

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Ultraleve Mirage