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Aventuras


PILOTO DE GARIMPO

Muito já se falou a respeito. Reportagens na televisão já o retrataram como "maluco". Já foram em grande número, hoje são poucos. Muitos são "ex-" e tantos outros morreram, muitas vezes por motivos que nada tinham a ver com o tipo de voo, pois morreriam voando fora da Amazônia, se cometessem aqueles mesmos erros.


Eu voei em ITAITUBA cerca de 2.000 horas em um ano e meio.


Conheci gente de toda espécie, tanto pilotos, donos de pista, garimpeiros e putas. É isso mesmo, não errei ao escrever. Lá elas têm uma função social e são tão necessárias quanto as cozinheiras das equipes para manter o equilíbrio emocional daqueles homens, na maioria, rudes, ou por natureza ou assim transformados pela dureza da vida. Umas alimentam o corpo, outras saciam os desejos, num convívio respeitoso e pacífico.


Como em qualquer sociedade, lá também existem os "desvios de conduta" mas, "no geral", as regras são obedecidas. Atitudes que nos chocam, à luz de "nossas" convenções sociais, são normais noutras culturas. Assim, naquele lugar, o trabalho daquelas moças em nada ofende as famílias.


Como muitos donos de garimpo mantém a família em Itaituba ficando eles próprios no mato, a esposa na cidade, é encarregada de providenciar o suprimento para o garimpo, nele incluídas as "moças" para a boate. Não raro vi maridos reclamando com as esposas para que caprichassem mais na escolha.


Lembro que um dos aviões que pilotei era o PT-IPG que eu traduzi - Para Transportar Índios Putas e Garimpeiros. No manifesto de carga tudo é discriminado e pesado. Às vezes chegava uma carga de última hora que tinha preferência e eu era obrigado a alterar o manifesto: saem duas putas e entram dois leitões de 90Kg (elas geralmente são magrinhas e conta também o peso da "boroca" que é como chamam a bolsa ou mala).


Pilotos são seres humanos, parecem com os outros homens, agem de maneira normal, mas fazem parte de um grupo especial. O mundo que eles vêem é diferente, até porque ele é visto de outro ângulo: de cima.


O piloto de garimpo é mais particular ainda. Só quem voou na Amazônia, talvez entenda esta diferença. É mato prá todo lado e a paisagem, à primeira vista é toda igual tornando as cartas aeronáuticas inúteis. Uma única estudada no mapa é suficiente para saber que as poucas referências são os rios Tapajós, Jamanxinho e a estrada Cuiabá/Santarém. O resto é uma mancha verde. Naquela época não tínhamos o GPS, aquele aparelhinho endiabrado que nos dá as coordenadas geográficas de onde estamos e nos dá a direção, tempo de vôo, correção do vento e velocidade no solo para voarmos até um ponto cujas coordenadas lhe fornecemos.


Navegávamos então basicamente por proa e tempo. A resposta para a pergunta " — onde fica a pista X? ", invariavelmente será " — Vai na proa Y e volta na proa Z com tantos minutos de vôo. O rumo não é importante pois, como o vento é constante em direção e intensidade, já são dadas as proas de ida e volta.


Eventualmente há uma mudança na direção do vento e aí é aquele "Deus nos acuda", quando o vôo é "guardado".


Os menos cuidadosos muitas vezes não acham as pistas de destino e o jeito é voltar para Itaituba. Com o teto baixo fica muito difícil achar certas pistas, pois, sendo o desmatamento muito pequeno, somente o necessário para fazer a pista, só se consegue avistá-la se passarmos na vertical.


A solidariedade é um sentimento altamente desenvolvido entre os que voam lá no mato. A disputa pelo vôo é dura e implacável e aqueles que chegam para tentar a sorte encontram bastante dificuldades. Quando, porém, estão empregados e não representam mais ameaça ao emprego dos demais, podem constatar o que digo. Se um companheiro não volta ao final do dia, a mobilização é geral. Lá uns cuidam dos outros. Pela fonia é feito o serviço de controle de tráfego aéreo pois em SBIH só tem TWR e isto é coisa recente. Antigamente até a ordem de pouso e decolagem era feita pelos pilotos numa operação, no mínimo, curiosa. Devido à posição da pista em relação ao estacionamento e o fato de não ter pista de táxi, as decolagens eram feitas da cabeceira próxima ao estacionamento e o pouso na cabeceira oposta.


As aeronaves para decolar se posicionavam em fila na lateral direita da pista de táxi e na pista de decolagem, e as que pousavam, ficavam na outra metade. As decolagens só eram interrompidas quando a aeronave em aproximação girava base, e eram reiniciadas quando esta passava ao lado da primeira da fila da decolagem. Em 1988, quando passou a operar a TWR IH, o SRPV 1 sabiamente, manteve este tipo de operação pois, do contrário, inviabilizaria o vôo na região. Imaginem cerca de 300 aeronaves em uma operação padrão, fazendo dois a três vôos por dia cada (chegamos a registrar mais de 1000 operações de decolagem num dia). Era comum chamar para o táxi e receber o número 30 para a decolagem.


A coordenação do tráfego saindo e chegando sempre foi eficiente, mesmo durante o inverno (NOV, DEZ, JAN e FEV) quando era comum o teto de 300 pés em ITAITUBA e condições IMC com chuva durante toda a rota. Até a época que eu voei por lá (88 e 89), somente dois acidentes de colisão haviam ocorrido, um no pouso e outro em rota, ambos sem nenhuma relação com estas condições peculiares de operação.


No acidente sem vítimas, ocorrido no pouso, estavam no tráfego somente as duas aeronaves, o PT-IFL (C210) na curta final e o PT-MGM (C206) girando base. Como todo piloto de garimpo, o 210 pousou no primeiro metro da pista. O 206 que estava muito próximo, achou de dar um motor e pousar lá no meio da pista, à frente do 210 que, por sua vez, para ajudar o companheiro, após pousado, deu motor para livrar a pista mais rápido. O 206 pousou exatamente em cima do 210. Os danos foram mínimos. Duro foi tirar um avião de cima do outro.


Já a colisão em vôo teve como vítima o piloto de um Bonanza que, por ter um avião mais rápido, gostava de dar susto nos amigos, mergulhando e passando por cima e à frente dos mesmos. Neste dia ele errou os cálculos, perdeu a cauda na hélice do outro. Seu avião caiu desgovernado e o outro conseguiu pousar em Miritituba, em frente a Itaituba, do outro lado do rio Tapajós.


Este texto foi extraído do livro “PILOTO DE GARIMPO” que escrevi e talvez venha a publicar algum dia. Noutras edições, se for do agrado dos leitores de SKYDIVE, contarei mais.


O LIVRO JÁ ESTA PRONTO. PARA MAIORES INFORMAÇÕES taisouzand@hotmail.com


 

 

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