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Aventuras


OUTRO VÔO INESQUECÍVEL, GRAÇAS AO PASSAGERIO

Tempos atrás escrevi sobre alguns vôos que foram especiais e marcaram na minha vida de piloto. Falei de dois apenas ( dois Christen Eagle na ala de um B737 e dois T6 na ala de um ultraleve) embora existam muitos outros que guardo na memória , mas todos relacionados com o meu eu “piloto” , com a satisfação que deram a mim.

Outros vôos eu fiz para realizar o sonho de outras pessoas, e que não foram poucos, levando-as para os seus “vôo de batismo” , ou seja, para o primeiro vôo. Destes tenho vagas lembranças que de vez em quando me são relembradas pelos “batizados” quando os encontro por aí.

Ontem, 06 de junho de 1996, realizei um vôo diferente: estava no CEU, nosso clube de ultraleves ao lado do autódromo de Jacarepaguá, e entre uma decolagem e outra vi o Rui Marra tentando decolar de paramotor num vôo duplo. O vento calmo dificultava a decolagem e, após uma “abortada” na qual ele acabou sentado no chão embolado com seu carona, fui até lá fazer chacota com o mesmo, dizendo que ele desaprendera a arte de voar. Desisti da brincadeira quando vi a expressão de desapontamento estampada no rostinho do seu passageiro de 9 anos, portador de um defeito nas pernas que lhe dificultava a corrida no solo, e que acabara derrubando os dois.

Aí o Rui chamou-me de lado e explicou que o jovem era paciente do seu pai , que é médico, e que estaria sendo levado na próxima semana para o Hospital Albert Einstein em S.Paulo, praticammente sem chances de recuperação, vítima de um câncer que causa a degeneração dos músculos, e que ele atendia a um desejo do menino levando-o para voar. Pediu-me então que o levasse num ultraleve pois no paramotor não estava sendo possível.

Concordei e fui com ele achar alguém que me emprestasse uma aeronave para fazermos nosso vôo. Vi o V5 do Paulo Lapenda e instruí meu pequeno passageiro de como pedir a máquina emprestada, e ele o fez direitinho. A alegria estampada em seu rosto misturava-se com o medo do desconhecido mas, tão logo abri a porta ele “escalou” a cabine e eu coloquei nele o cinto e o capacete.

No táxi fui explicando o que estávamos fazendo e como seria o vôo. Decolamos curvando à direita e fomos para a praia onde o vento estava calmo e o visual é indescritível. Ele sorria. A tensão de antes dava lugar àquela sensação de paz que experimentam tantos quantos se aventuram ao vôo e têm na alma algum resquício dos pássaros, seus ancestrais. Sim, porque acredito que somente quem não gosta de voar tenha evoluído do macaco conforme a teoria de Darwin. Os que voam, segundo a minha teoria, teriam involuido dos pássaros e agora tentam voltar à condição primitiva, readquirindo a capacidade de sustentar-se no etéreo, ainda que com o auxílio de artefatos por ele construídos.

Quando chegamos próximo da Lagoa Marapendi ele perguntou-me o que eram aquelas manchas brancas sobre as árvores. Eram as garças que, aos bandos, pousam nos arbustos que margeiam a lagoa, nos finais de tarde. Mergulhei em direção à água e nivelei a poucos metros da superfície, voando em direção às “manchas brancas” que com nossa aproximação alçaram vôo criando um belíssimo efeito visual e que arrancaram gritos de excitação do meu pequeno passageiro. Voamos depois sobre o mar e voltamos ao clube.

Enquanto andávamos de volta à sede, seu único comentário foi :- é muito mais fácil que o paramotor!!

Ele então agradeceu ao Paulo e “correu” até sua mãe sem mesmo agradecer-me ou dizer adeus. Nem era necessário. Eu é que estava agradecido a Deus por poder ter-lhe proporcionado tamanha alegria, talvez a última.

 

 

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