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Aventuras


UM COMBATE AÉREO INUSITADO

Cada vôo deve ser curtido ao máximo. Pilotos e aviadores devem fazer dos seus vôos uma lição a mais e , em cada “próximo vôo “ não repetir os erros do anterior.

Os aviadores além da experiência, tiram dos seus vôos emoções, sensações que só a alma percebe e que os tornam seres diferentes e os vôos , por si próprios, inesquecíveis.

Para os pilotos, cada vôo significa um dia a menos até a sua aposentadoria, para os aviadores, um a mais a ser lembrado quando ele não puder mais voar. Por esta razão nunca deixo de ouvir as histórias de velhos aviadores “groundeados” porque o corpo “deu pane”, mesmo que já as conheça e as tenha escutado inúmeras vezes. Somente aviadores em atividade podem suprir suas vidas com novas experiências e contar histórias inéditas a cada dia.

Já fiz alguns vôos inesquecíveis. Voei na ala de um Boeing 737 com um Christen Eagle, por exemplo. Foi num EBRAVE lá no ARGS, em Belém Novo. Combinamos com o “Piolho”, que estaria chegando à P. Alegre num vôo cargueiro, durante a madrugada, que ele passaria na vertical do Aeroclube e que eu e o Colvara reuniríamos nele lá por cima do Guaíba, faríamos uma passagem sobre o aeródromo, dispersaríamos e ele prosseguiria para o Salgado Filho.

Na manhã seguinte foi aquela confusão. Não achávamos a chave do hangar 3 onde estavam os dois aviões. O “Piolho” passou na vertical quando tirávamos o último avião do hangar. Dei partida no PT-ZEX e fui me amarrando durante o táxi com o Colvara no ZRS logo atrás. Decolamos , reunimos no B-737 que estava flapeado e com o trem embaixo e passamos bonitos sobre a “curriola”que saía das barracas ainda meio sonolenta. O sol estava nascendo na nossa proa, e as imagens filmadas do solo ficaram lindas.

Outro vôo inédito teve dois outros protagonistas: Laerte Gouveia da SKYDIVE e o Carlos Edo, o “Cachorron”da NÚCLEO. Eles vinham de Joinville nos dois NA T-6 do CIRCO AÉREO ONIX , para a festa do MUSAL, no Campo dos Afonsos e pousariam em Jacarepaguá. Avisaram , por telefone , ao Cel Land que foi até ao CEU-Clube Esportivo de Ultraleve avisar-me. Eu decolei com o MUSTANG P-5151 do Fuchs, uma réplica ¾ de escala equipado com motor Rotax 582, e fui ao encontro deles, lá no Recreio dos Bandeirantes. Contato rádio feito, avisei ao Edo que os aguardava a 1500 pés sobre o Restaurante LOKAU e fiquei circulando até eles estarem bem próximos, quando aproei o CEU, na VNE e eles, com os flapes baixados, entraram , ou melhor dizendo, “penduraram” na minha ala, pois ficaram no pré-estol. Passamos sobre a pista do clube em formação, Laerte na direita e Edo na esquerda, com todos os sócios presentes, acenando do chão. Disseram que foi muito bonito.

Um dia fiz um combate aéreo com dois flamingos, aqueles enormes pássaros cor de rosa que parecem com uma garça.

Eu era capitão aviador e estava realizando um vôo de experiência após revisão, num T-25 Universal. Voava sobre a Lagoa dos Patos , lá para os lados de Belém Novo, quando avistei os dois bichões voando em ala numa rota contrária à minha e uns quinhentos pés abaixo. Quando cruzaram comigo, afastados e à direita, simulei um ataque pois já estava na hora de voltar à Base que ficara para trás , e eles iam naquela direção.

Qual não foi minha surpresa quando as aves, ao invés de simplesmente mergulharem, como fazem os urubus, fizeram uma manobra defensiva usada em combate aéreo e só adotada no Brasil após a vinda dos F-5. Olharam para mim e apertaram a curva, ainda mantendo ala, obrigando-me a “puxar G” para não espirrar na curva e manter a perseguição. À distância que seria para apertar o gatilho da metralhadora, caso a tivesse, fizeram um “SPLIT” ( sai um para cada lado). Antes da era “F-5”, o ala mantinha posição na formatura durante todo o combate, embora nada pudesse fazer para ajudar seu líder.

Com o “SPLIT”, o perseguidor é obrigado a escolher e perseguir um dos dois, deixando o outro livre para manobrar e encaudá-lo.

Como eu dizia, os flamingos fizeram o split e eu botei o nariz do avião para cima com a intenção de matar a velocidade, trocando-a por altura, e assim manter minha energia, que é fundamental num combate. Este recurso é utilizado em combate, quando as aeronaves têm “envelopes” muito diferentes, tipo Xavante x F-5 ou T-6 x Xavante. O envelope de uma aeronave mostra qual é altitude e a velocidade onde ela é mais manobrável, por ex: o F-5 é bom entre 20 2 30 mil pés e entre Mach .8 e Mach 1.2, já o Mirage manobra melhor acima de 30 mil e com maior velocidade. Assim, se a aeronave mais veloz tentar encaudar a mais lenta, terá que reduzir sua velocidade e perderá energia, tornando-se uma presa fácil para a outra, caso não a abata na primeira tentativa. Neste caso usa-se o “SNAP SHOT” , ou tiro de passagem, sem diminuir a velocidade para entrar na curva de perseguição e, após atirar, troca-se velocidade por altura sem o risco de ser acompanhado pelo inimigo.

Como os flamingos não sabem nada disto, eu acho, e eu não voltei ao ataque, reuniram e seguiram viagem, imagino que P.. da vida com aquele intruso que veio perturbar-lhes o vôo até então sereno que faziam, naquela manhã de primavera.

 

 

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