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Cronicas


O SONHO VIROU REALIDADE

Você alguma vez sonhou que estava voando? Pois eu já. Faz muito tempo - começou quando eu era criança - não me lembro bem em que época foi mas lembro bem de quando terminou.

Era um sonho daqueles bons, que a gente deita na cama, reza prá agradecer a Deus pelas bençãos do dia e aproveita para pedir, se não for muita exploração, que Ele nos faça sonhar novamente.

Não era um sonho comum pois o vôo era algo de insólito. Eu voava sem avião, por meus próprios meios, aliás o vôo verdadeiro. O resto é andar de avião ou, no máximo, pilotar um aparelho.

Lembro que as situações variavam mas, no final, o vôo era o mesmo, com todo aquele prazer que só sentiu quem já voou.

Como disse, recordo bem da última vez que fui abençoado com aquele sonho, isto porque nele o Yuri, meu filho, estava comigo e ele tinha uns quatro anos de idade. Jogávamos futebol na praia da Barra da Tijuca quando, num chute mal dado - sou péssimo jogador - a bola caiu próximo da água.

Aí já não era a praia da Barra como a conhecemos. Em sonho tudo é possível. Muda-se de cenário como num passe de mágica. A areia onde jogávamos era normal, porém havia um grande desnível e o mar ficava lá embaixo, a água começando após alguns metros de lama como se a maré estivesse baixa, e foi na lama que a bola caiu.

O sonho ficou tão gravado na minha mente que hoje, tentando descrevê-lo, "vejo" o desapontamento no rosto do Yuri ao ver sua bola lá no meio da lama.

Foi quando fiz meu último vôo de sonho. Corri na areia e mergulhei em direção à bola. No momento em que a vida real me sujaria de lama, abri os braços e o sonho me sustentou fazendo-me voar como o Peter Pan das histórias da nossa infância.Ganhei altura sem esforço nenhum. Não bati asas porque não as possuia, térmicas sôbre o mar não existem, ascendente orográfica era impossível pois não ventava nada,nem uma brisinha, forma aerodinâmica capaz de gerar sustentação, os braços não possuem. Só o desejo de voar e a permissão de um ser superior poderiam fazer com que um reles mortal tivesse o privilégio de sentir essa sensação reservada aos pássaros.

Invejo o Fernão Capelo, não as outras gaivotas que fazem aquele vôo "papai-mamãe".

Imagino o que ele sentiu quando iniciou seus treinamentos acrobáticos. Li o livro, vi o filme e ouvi o disco tantas vezes e em cada uma delas percebi coisas novas, senti emoções diferentes. Desde aquela época nunca mais fui o mesmo, pelo menos em relação ao vôo. O simples ato de voar já torna o voador um homem diferente dos demais. Dentre os que voam, tal qual o Fernão destacou-se do seu bando, aqueles que fogem da rotina buscando novas sensações também têm algo de especial, ou um parafuso de menos como disse o nosso voador Armando Nogueira ao descrever a acrobacia da campeã russa que por aqui exibiu-se com um Sukhoi 29. 

A acrobacia aérea dá ao voador aquele algo mais que torna o seu vôo diferente dos demais e lhe enseja, a cada decolagem, experimentar, treinar, aperfeiçoar, inventar , se isto ainda é possível depois de tanta coisa que já foi feita. Cada vôo deve ser curtido ao máximo e em cada um devemos buscar novas sensações e ensinamentos, do contrário os aparelhos que pilotamos ficam resumidos à uma plataforma de observação da natureza ou um mero veículo de transporte e nós , os pilotos , nunca seremos voadores, restando-nos voar baixo, em bando e comendo o peixe da superfície, como as gaivotas do Fernão.

Aí, aprendi a voar de asa delta. O vôo livre deu-me a sensação mais próxima daquela sentida nos meus vôos de sonho.A partir daí, nunca mais sonhei que estava voando. Eu voava quase de verdade.

 

 

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