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QUASE QUEDA DO FOKER

Depois de passar dois anos em BQ ( Cidade de Barbacena –MG), cursando os dois primeiros anos da EPCAR-Escola Preparatória de Cadetes do Ar, prestei concurso para a Escola de Aeronáutica que ficava no Campo dos Afonsos no Rio de Janeiro.

Se eu tivesse completado o terceiro ano da preparatória a entrada nos Afonso seria automática mas eu, um dos mais velhos da Turma de 67 em BQ, resolvi recuperar o tempo perdido ( quando entrei em BQ já havia cursado o primeiro científico, como era chamado o curso que antecede a faculdade naquela época).

Finalmente eu era um Cadete do Ar. Nosso primeiro semestre do ano de 1969 foi ocupado com muita aula e treinamento militar mas no segundo fomos apresentados ao Fokker T-21 que seria nosso treinador básico. 

Fomos divididos em dois grupos e nos revezávamos: enquanto uns tinham aulas teóricas, os outros voavam. A instrução de vôo para um piloto militar difere da que se submete um piloto civil pois inclui a “seleção”, o que é feito criando-se “limites” no número de horas de vôo para que cada fase da instrução seja cumprida. Na fase de pré-solo, o cadete pode solar em Xzero, ou seja, na primeira chance, em X1, X2 ou Xfoda-se. Quem não passar no cheque no Xzero recebe mais duas missões e aí vai a cheque em X1. Se não deer ainda recebe mais uma missão e vai a cheque em X2. Se não der aí vai a Conselho de Vôo que poderá dar mais uma chance ( Xfoda-se) ou desligar de imediato. Na aviação civil este “limite” é bem mais amplo e, dificilmente, um candidato que tenha recursos para pagar as horas de vôo de treinamento, deixa de receber sua Licença de Piloto.

Imagine você a “pressão” psicológica na cabeça de um garoto de 20 anos, sabendo que tem menos de 10 horas de vôo para aprender e voar solo uma aeronave! Se não conseguir, será desligado do vôo e verá seu “sonho” desfazer-se de um dia para o outro! Este “pesadelo” acompanha um cadete por todo o tempo que antecede o seu aspirantado. O risco do “desligamento” é permanente na vida de um cadete e não só o vôo pode desliga-lo mas também um conselho disciplinar.

Eu, como já possuía a Licença de Piloto Privado e muitas horas de vôo, sofri menos pressão com este problema, embora não estivesse livre de um desligamento, mesmo em vôo. 

Naquela época, além de saber voar, o cadete tinha que ter sorte na hora da designação do instrutor que iria lhe instruir no vôo. Dois colegas meus que também possuíam a habilitação de Piloto Privado foram desligados em vôo por “não serem aptos à pilotagem militar”. Eu dei sorte tanto no estágio quanto no instrutor designado. O então Ten Av Sarmento, a quem tenho como amigo até hoje, a quem o então Maj Av Pedro Batista, Chefe do Estágio Primário, chamava de “canarinho”, tornou muito fácil aquele meu período de instrução primária na Escola de Aeronáutica.

Solei em X zero ( depois do cheque feito pelo Pedro Batista que também tem a minha admiração até hoje). Aí vieram as outras fases da instrução, acrobacia e formatura, que também transcorreram sem nenhuma novidade. 

Na última fase que era navegação, fiz uma viagem a Campos-RJ, saindo lá dos Afonsos. Lembro que era num sábado e meu instrutor foi o Cap. Av Neves. Na ida ele foi ensinando os métodos da navegação visual mas, quando viu que eu já sabia navegar, transformou o vôo num “passeio” a Campos. O dia estava ensolarado e fazia calor. Meu instrutor abriu o macacão de vôo tirando-o até a cintura, para pegar sol. Aí ele assumiu o comando e me liberou para tirar o meu também. Abri o cinto de segurança, tirei a parte de cima do macacão de vôo e a camiseta e assumi o comando novamente.

Vínhamos assim, apreciando as pessoas na praia e pegando um bronzeado, quando outro Fokker tentou entrar na nossa ala. Era outro cadete em viagem. O Neves deu mais potência e resolveu “apostar” corrida com ele, para ver quem chegaria antes nos Afonsos. 

Passamos a “boca da Barra”, como é chamada a entrada da Baia de Guanabara, as praias de Copacabana, Ipanema e Leblon e estávamos em S. Conrado quando o Neves mandou que eu passasse colado na Pedra da Gávea de forma a cortar caminho.

O instrutor mandou e eu fiz. Ambos esquecemos da turbulência orográfica que se forma à sotavento de uma montanha quando há vento. Neste dia havia e era Norte.

Quando “encostei” na Pedra da Gávea, levamos uma pra baixo que o avião literalmente “saiu de baixo” de mim. Eu esquecera de afivelar o sinto depois de tirar a camiseta e fui “cuspido” pra fora do Fokker. Não deu tempo para nada, a não ser “travar” os pés sob o painel. Sai até a cintura fora da carlinga da maquina. O Neves agarrou-me pelas pernas e me puxou de volta pra dentro do avião. O susto foi enorme e levamos algum tempo pra voltar ao normal. Entramos no tráfego dos Afonsos ainda rindo muito. Imaginávamos a manchete que daria nos jornais: Cadete morre em queda de avião e é encontrado de botas e cuecas próximo à Pedra da Gávea. Imaginávamos que na queda o macacão como fecho éclair aberto seria arrancado do corpo.

 

 

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