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Traslados


TRASLADO DA PRIMEIRA ESQUADRILHA DE F5 TIGER II

Outro dia recebi da ABRA-PC o volume II do Estórias Informais da Caça e li o texto que o Quirico escreveu sobre a implantação dos F5 no Brasil. Riquíssimo em detalhes que já nem lembrava mais e bastante útil para que os “novinhos” que hoje voam aeronaves com cerca de 30 anos de idade ( e que, pelo visto, continuarão em atividade), saibam como foi a preparação do Grupo de Caça para recebe-la. Só achei que falou pouco do traslado e achei válido lembrar como foi, até porque ele omitiu a participação dos três “novinhos”, 2o Ten Av Bernardo, 2o Ten Av Aguinaldo e 2o Ten Av Albrecht.

A escala para os traslados foi feita por antiguidade, como não poderia deixar de ser. Completadas todas as “vagas”, sobraram os três mais modernos, já nominados anteriormente, e fomos escalados para compor a primeira esquadrilha composta por três F5 B. Os demais fariam o curso aqui no Brasil para então ir buscar os F5 E (monoplaces).

Embarcamos num C-130 e fomos para a California. Éramos uns vinte militares: eu chefiava o bandão por ser o aviador mais antigo ( o Dr Tartarel era mais antigo que eu), Bernardo e Aguinaldo, o médico do Grupo de Caça, e nossos anjos da guarda, a equipe de manutenção que viria no apoio.

Na ida pernoitamos no Panamá após 10 horas de vôo. A turma agüentava firme aquele banco lateral do Hércules mas, cá entre nós, não deve ser fácil. Eu me safei dessa porque, embora não sendo arataca, sempre gostei de “sestear” numa rede e a minha foi junto. Antes da decolagem pendurei-a lá na traseira do Hércules e, tão logo decolamos lá pelas 22 horas de um dia qualquer de fevereiro de 1975, deitei e dormi o sono dos justos. Acordei já na descida para a Cidade do Panamá. Não lembro mais o nome do hotel que ficamos mas lembro que era um Hotel cassino e lá tivemos nosso primeiro contato com as roletas e caça niqueis. Recordo que ao sair do cassino para uma jantar num restaurante próximo, havia uma senhora, bem velhinha, que apostava com decisão em duas máquinas caça niqueis. Apostava 0,25 cents de dólar em cada aposta. Na volta, quase duas horas depois, encontrei a mesma velhinha, nas mesmas máquinas que apresentavam as caixas de coleta cheias de moedas. Arriscamos algumas apostas perambulando pelo cassino e observando os jogadores profissionais, quando escutamos campainhas e sirenes tocando forte. Fomos para a área das máquinas caça niqueis e vimos uma cascata de moedas sendo "cuspidas" por uma das máquinas onde a velhinha apostava. Ela havia acertado a linha inteira e o premio era bem alto.

Saímos da Cidade do Panamá no dia seguinte pela manhã.

Chegamos a Los Angeles e ficamos num Holliday Inn, se não me engano próximo a Redondo Beach. Teríamos alguns dias por lá, aguardando que nossos mecânicos “recebessem o serviço” e se preparassem para o traslado.

Aproveitamos para passear. Era a primeira cidade americana do Norte que nós conhecíamos. Alugamos um carro e, pela primeira vez dirigi um carro automático. Eu dirigia e o Bernardo navegava. Abaixo a equipe, em capa da revista da Northrop de Maio de 1975.

Lá já estavam o Major Duncan ( CONFIREM), o Maj Gildo, o saudoso Maj Lazzarini e o Cap Quírico. Os três fizeram todo o curso do F5 conforme o Quírico já descreveu no seu artigo e seriam os pilotos no traslado das primeiras aeronaves e, no Brasil, dariam a instrução para os demais.

Eu faria dupla com o Gildo, o Aguinaldo com o Lazzarini e o Bernardo com o Quírico. Cada dupla fez um vôo local em Palm Dale. Era a primeira vez que voávamos máquinas “zero bala”. A emoção era grande, ainda mais pela novidade de voar sobre uma região muito especial: Palm Dale fica no meio do deserto e ao lado existe uma cadeia de montanhas totalmente coberta de neve. 

Meu vôo com o Gildo consistiu numa decolagem, um procedimento instrumento numa base da USAF próxima com arremetida no ar, uma subida até a área de treinamento que ficava sobre os picos gelados das montanhas, alguns toques e arremetidas em Palm Dale e só.

Do vôo lembro que na arremetida do procedimento, avistei pela primeira vez um SR 71. Eles ainda eram “secretos”. Os EUA mantinham tudo sob segredo. Fomos recomendados a não fazer fotos mas não resisti: tinha uma Olympus Penn no bolso do anti-G e saquei algumas fotos do SR 71 que estava o táxi na nossa arremetida.

Como o Quírico bem disse no seu texto, nossos instrutores não fizeram “mistério” quanto ao vôo do F5. Desde o primeiro vôo o Gildo iniciou a instrução, deixando-me pilotar a maquina e, no traslado nos revesávamos na pilotagem como se eu já estivesse formado.

O traslado iniciou em Palm Dale de onde decolamos para San Antonio no Texas. Nossas etapas eram de cerca de duas horas, mas tínhamos que esperar o C-130 do apoio que levava o dobro do tempo. Desta forma acabávamos progredindo pouco a cada dia e nossa viagem levou quase uma semana. Pousávamos sempre em bases da USAF e lembro da minha surpresa quando nos deparamos com mulheres na Força Aérea. Que diferença na hora de guarnecer: contrastando com à “tosqueira” dos nossos sargentos mecânicos na hora de “vestir” os cintos, as “moças” da USAF até ajeitavam a gola do macacão da gente nesta hora, com o maior carinho...

Nossa saída dos EUA deu-se da Base Aérea de Homestead, ao Sul de Miami. De lá voaríamos até San Juan, na Ilha de Porto Rico. A etapa era apertada e nossa alternativa era Gran Turk, uma das ilhas das Turks Islands que ficam a meio caminho, na aerovia que voaríamos. Nosso ponto de decisão ficava entre Gran Turk e San Juan e assim, nosso líder naquela etapa, Cap Lazarini consultou o METAR de San Juan. Prosseguimos pois as condições eram favoráveis. Ao avistarmos a ilha onde a pista fica na sua costa Leste, vimos uma “estrataria” colada que avançava de Oeste para Leste e já cobria mais da metade da mesma. Descemos tipo “pé na bussa” e pousamos um pouco antes de o aeródromo fechar IFR. Por pouco teríamos seis pilotos ejetando-se por não ter onde pousar.

Dali pousamos em Trinidad e Tobago e em seguida partimos para Belém, nosso aeroporto de entrada no Brasil. 

Lembro, como se fosse hoje, da surpresa ao escutarmos no rádio a voz do nosso atual Presidente da ABRA-PC, na época Cmte da Base Aérea de Santa Cruz, Cel Av “Baixinho” Menezes dando-nos as BOAS VINDAS na freqüência do Centro Belém.

Naquela etapa o Quirico com o Bernardo lideravam a esquadrilha. O Gildo havia deixado a etapa para mim e voávamos como #2. Entramos no tráfego de Val de Cans, fizemos o pilofe e entramos na final. Não sei por qual razão o líder arremeteu e eu fiz o primeiro pouso de F5 brasileiro em nossa terra. O primeiro foi de um F5 americano que aqui esteve no ano de 1973 para uma feira que aconteceu em S. José dos Campos. Aliás, foi lá que vimos pela primeira vez aquela máquina da qual sabíamos haver a intenção de compra. Lembro que eu e o Godinho fomos a S. José visitar a feira e ficamos admirando a aeronave e sonhando com o dia em que a voaríamos.

No dia seguinte decolamos para Brasília não sem antes fazermos uma passagem baixa sobre a BABE, liderados pelo Lazzarini . O Comandante da BABE ficou decepcionado com nossa chegada padrão Quirico: bolinha no centro, e caxias como sempre foi. praticamente "exigiu" que o Lazzarini fizesse a passagem.

O Gildo estava contrariado com a passagem pois estávamos pesados ( dois sub alares cheios) e nem quis fazer aquela etapa que seria dele. Só mandou: -novinho... gruda na ala e não sai daí.

Brasília /Rio foi normal. A pista de Santa Cruz estava em obras para aumento de seu comprimento e colocação das barreiras para receber as novas aeronaves, assim nosso destino foi SBGL. A chegada foi suntuosa , com direito a banda de música, Ministro da Aeronáutica e imprensa. Os familiares do pessoal envolvido nos traslado estavam lá nos aguardando. Foi uma festa.

Toda esta viagem foi registrada em filme. A Northrop enviou no traslado, além de seus técnicos que depois ficaram conosco durante a implantação dos novos aviões, uma equipe de RP que filmava cada movimento das equipagens. Este filme, infelizmente, perdeu-se por má estocagem lá no CEREPA, antigo nome do CECOMSAER. Nossa esquadrilha foi capa da Northrop Technical Digest daquele mês de Março de 1975. Recebemos, cada um dos tripulantes, uma placa comemorativa à incorporação à FAB dos primeiros F5.

 

 

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Capa da revista da Northrop mostrando a primeira esquadrilha
equipe indo para os EUA no C-130
domando o bicho