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Acidentes


POUSO N'ÁGUA COM UM PAWNEE NO CARIBE

A operação de hidroaviões, ou de aeronaves anfíbias na água, requer um treinamento especial pois a técnica utilizada, tanto no pouso quanto na decolagem, difere daquela que se usa na terra. Um instrutor e algumas horas de treinamento, no entanto, são suficientes para adaptar qualquer piloto a realizá-la com segurança.

O pouso de emergência n’água com aeronaves terrestres já é mais complicado pois dificilmente algum piloto fará o segundo. Tem que acertar “de prima”, já que um “treinamento” seria arriscado, além de caro.

A maneira mais aconselhável de se aprender é estudando o que dizem os livros sobre o assunto, e na emergência, tentar acertar na primeira tentativa. Mas os livros, muitas vezes só falam da técnica do pouso, discutindo :

- se o pouso deve ser feito paralelo às ondas ou procurando um vento de proa;

- no topo da onda ou depois da mesma;

-pousar estolado ou “de pista”.

E o fator psicológico?? E o tipo de avião?? E a condição do mar?? E a preparação para o vôo ???

Um avião com trem fixo terá um comportamento diferente de um com o trem retrátil. Da mesma forma um avião de asa alta terá a cabine cheia d’água bem mais rápido do que um de asa baixa, teoricamente.

Se o piloto detecta uma pressão baixa no óleo do motor seguida de sinais de vazamento do mesmo e logo em seguida tem uma parada do motor, ele usará todo o tempo disponível para preparar-se para o pouso, mas se ele acha que o problema foi com o sistema de combustível, ficará tentando fazê-lo voltar a funcionar até o último instante, não sobrando tempo para as ações necessárias ou desejáveis para um pouso de emergência. 

É muito difícil para um piloto aceitar o fato de que vai perder a “máquina”, passivamente, sem tentar salvá-la até o último momento, e é praticamente impossível realizar as duas tarefas ao mesmo tempo: preparar-se para o pouso e dar partida, principalmente se ele for o único ocupante da aeronave.

A experiência do piloto também influi? Depende. Se ele tiver experiência anterior em pouso de emergência na água talvez sim, mas somente horas voadas em condições normais não ajudam tanto. No primeiro pouso n’água qualquer piloto é um “manicaca”. É certo que a tranqüilidade de um piloto bem voado melhora as suas chances pois a pilotagem do avião é instintiva, não necessitando olhar para o painel para consultar velocidade ou altura, e o procedimento de partida em vôo é automático, mas pára por aí.

Eu pousei n’água no dia 24/06/95, a 50 Km da costa da Flórida-EUA, após decolar de Ft. Lauderdale , com um PAWNEE, aeronave agrícola, trem fixo, convencional e asa baixa.

O motor parou após eu ter ligado o sistema de combustível auxiliar que utiliza a gasolina transportada no “hoper” e ter fechado a “shutoff”do sistema principal, não tendo voltado a funcionar quando abri novamente a “shutoff” e liguei a bomba elétrica. 

-Não acreditei , em momento algum, que não conseguiria dar partida antes de bater na água, embora não tivesse muito tempo pois, devido ao teto baixo, voava a 1500’ de altura.

- Em conseqüência disto não preparei-me para o pouso pois tentei dar partida até o pouso.

-Como o mar estava calmo, não havia sinais de vento forte e havia um barco exatamente na minha proa e afastado uns 3 Km , mantive a reta até o pouso.

-Arredondei e estolei uma fração de segundos antes do toque das rodas n’água e que fizeram com que o avião pilonasse.

-Não estava adequadamente trajado para o vôo sobre a água. Como eu voaria a metade da rota sobre o mar e a outra sobre floresta, preocupei-me mais com a floresta. Estava vestindo botas , calça jeans e macacão de vôo cor de laranja. Usava um colete salva-vidas cujos bolsos estavam cheios de material de sobrevivência ( ELT, material de pesca, isqueiro, lanterna, comida, etc ).

-O cinto de segurança da aeronave não era adequado: os suspensórios eram costurados nas pontas do cinto, e nele ficavam presos quando se abria o fecho do cinto.

-Em conseqüência disto, ao tentar sair da cabine, já submersa e cheia d’água, fiquei preso pelos ombros e, na tentativa de desvencilhar-me dos suspensórios, perdi meu colete salva-vidas.

-Não havia nenhuma chance de tirar o macacão e as botas que me impediam de nadar, e ainda tinha ferramentas, pilhas reserva para o GPS e outros apetrechos nos bolsos das pernas do macacão, cujo peso puxava-me para baixo.

-A única ação que me restava era tentar manter-me na superfície o que era tremendamente dificultado pela dor que sentia devido à queimadura química que a gasolina espalhada sobre a água produzia na minha pele.

-Não havia conseguido transmitir nenhuma mensagem de socorro pelo VHF devido ao congestionamento da freqüência e a aeronave não dispunha de transponder para seletar a freqüência de emergência, assim ninguém sabia do meu pouso.

-Quando o barco que vinha em minha direção e que era minha única expectativa de salvação fez 180º de curva e foi embora, levou consigo qualquer esperança de sobreviver.

-A mente humana tem poderes que pouco conhecemos. Após constatar que ninguém no barco me avistara, talvez para livrar-me da dor e do cansaço, “sai do ar” e voltei cerca de uma hora depois como que “acordando”, ao ouvir um barulho. Abri os olhos e avistei um barco pequeno a cerca de 50 m de distância, com um homem jogando uma linha de pesca no mar. No terceiro grito ele olhou em minha direção e avistou meu braço que eu levantara com muito esforço, acenando-lhe e pedindo socorro.

-Fui resgatado pelo coreano CHUN SON KIM, de 57 anos de idade, que pescava sozinho em seu barco a 50 Km da costa e que por algum motivo parou a 50 m de onde me encontrava, sem nenhuma esperança de ser salvo, para jogar sua linha n’água.

Das muitas coisas que pensei guardo duas: a tristeza de pensar que não veria meu neto crescer e o fato de que não me conformava em morrer afogado depois de tantos acidentes que já tive na vida.

Hoje, depois de chegar a conclusão de que aquele barco não apareceu ali por acaso, tenho uma dúvida: serei tão mau que devo permanecer vivo para pagar mais dívidas ou serei tão bom que não merecia morrer daquela maneira.

Peço desculpas ao meu “anjo da guarda” por mais este trabalho extra que lhe arranjei. Espero que ele não se aposente tão cedo.

 

 

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este foi o barco no qual o coreano me salvou
este é o meu salvador que, infelizmente já se foi...
aqui eu secava meus documentos e dinheiro, após ser resgatado...