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Artigos Técnicos


O STRESS PRÉ-VÔO

Em todos os manuais e cursos de pilotagem aprendemos que o sucesso de um vôo começa no adequado planejamento do mesmo e na concentração do piloto na hora de sua execução.

Quanto mais complexo for o vôo, mais cuidadoso deverá ser seu planejamento e maior deverá ser a concentração do piloto durante o mesmo. Para que vôos mais complexos sejam completados com sucesso, exige-se que o piloto tenha mais experiência e esteja psicologicamente preparado para realizá-lo, etc.

Os estudiosos da Segurança de Vôo escrevem exaustivamente sobre esse tema. Os Esquadrões de Caça da Força Aérea dispõe de “Médicos do Esquadrão” que fazem o acompanhamento dos pilotos para detectar qualquer problema, inclusive na vida privada, que possa vir a refletir-se no seu estado psicológico e, com isso, afetar a Segurança do vôo. As companhias aéreas dispõem de serviço semelhante, exigem que seus tripulantes apresentem-se com a devida antecedência para um vôo, de forma a ter tranqüilidade para executá-lo com segurança.

Tamanha importância é dada ao assunto mas jamais li matéria que fale sobre STRESS PRÉ VÔO ou, como evitá-lo, já que é tão importante.

Além do planejamento do vôo em si, a preparação da aeronave com o abastecimento, o pré-vôo e o carregamento adequado atendendo às limitações de peso e balanceamento e o preenchimento do Plano de Vôo são tarefas que devem ser cumpridas. Na aviação militar e na comercial muitas dessas tarefas não ficam a cargo do comandante do vôo, desonerando-o desse trabalho que pode lhe causar stress. Na Comercial o DOV-Despachante Operacional de Vôo é um grande auxílio para o Comandante.

Mas, e na Aviação Geral, como fica? Nela, não há co-piloto para dividir as tarefas nem : “staff” para ajudar. Recentemente fiz uma viagem com meu filho trasladando uma aeronave complexa e descobri uma “modernidade”, pelo menos para mim: empresas que fazem o trabalho dos DOV para os vôos privados e de Táxi Aéreo. São um grande alívio para o piloto, principalmente em vôos internacionais nos quais a “burocracia” é colocada no seu mais alto grau.

Infelizmente, por enquanto, esse serviço é caro e não é utilizado na nossa Aviação Geral doméstica e os pobres pilotos é que arcam com todo o serviço, com prejuízo para a Segurança de Vôo.

Situações que podem estressar um piloto antes de um vôo podem acontecer, por mais que o mesmo o tenha planejado e preparado.

Tenho vivenciado muitas delas pessoalmente e tenho sabido de outras através de amigos pilotos. A maioria ocorre devido ao excesso de burocracia ou à inadequabilidade das Leis e regulamentos. Criei alguns “paradigmas” que, se não 100% corretos, chegam bem próximos da realidade: 

-Quanto maior o aeroporto, maiores as chances de nos estressarmos com a burocracia;

-Quanto mais atrasado o país, mais burras são suas leis e mais burocrática é sua aviação;


Alguns exemplos de fatos vividos ou ouvidos:

CASO 1- Pousei em Caravelas apenas para abastecer. Tinha pressa para decolar pois minha hora de chegada à Vitória estava próxima do por do Sol.

Enquanto uma amigo cuidava do abastecimento corri para preencher o Plano de Vôo.

LEI INADEQUADA- Um vôo VFR sobre o litoral a 1000’, sem contato rádio com qualquer órgão de controle devido à altitude, necessita de autorização do Centro Brasília que deve ser solicitada através de um Plano de Vôo e deve ser preenchido 45 minutos antes da Hora Proposta de Calços fora.

A maioria das TWR-Torres de Controle autorizam a decolagem antes da hora proposta mas, em Caravelas, isso não aconteceu. Tive que pernoitar.

CASO 2- meu amigo Juca decolou do Campo de Marte com o Perdigueiro e pousou no Santos Dumont. No outro dia decolamos do Santos Dumont para um vôo no Litoral Norte do Rio, sem problemas. Um dia depois, ao preencher uma Notificação de Vôo para Jacarepaguá, não teve sua aprovação e foi impedido de decolar pois no “SISRAB” , o Sistema de Registro de aeronaves da ANAC, o PT-NOC estava com o Seguro RETA vencido. Foi impedido de decolar, mesmo mostrando o comprovante do seguro emitido pela MAFRE Seguros. Ele apresentou o Seguro no GER4 após sua emissão, conforme prevê a legislação mas, por algum motivo (mau serviço de alguém) não foi feita a atualização no SISRAB e sua aeronave interditada. Em conseqüência, perdeu duas reuniões importantes ( SHELL e BRITLING). Foi até a ABUL e teve que esperar que o Gonçalves levasse seu seguro à ANAC para incluí-lo no sistema. Devido à demora para decolar, a meteorologia deteriorou e ele voltou para S. Paulo de Ponte Aérea depois de ter voado até o través de Santa Cruz e retornado ao Santos Dumont. Felizmente ele teve o bom senso de voltar pois, estressado do jeito que estava ao sair do meu escritório, eu temia pela segurança de seu vôo.É um erro do SISRAB e quem paga é o usuário.

CASO 3- Um amigo decolou do Campo de Marte e voou com a família, de férias, para o Nordeste. Após dois ou três pousos, todos em aeródromos controlados e com fiscalização do DAC na época, foi parado porque o Fiscal de uma SAC, medindo o tamanho das letras da matrícula da aeronave na sua fuzelagem, constatou que as mesmas eram menores do que o previsto pela legislação. A aeronave foi interditada e meu amigo voltou com a família em vôo comercial.

Lei correta mas com aplicação inadequada: Nenhuma aeronave poderia ser interditada por um Fiscal de SAC, fora de sede, a menos que por motivos de absoluto risco à Segurança de Vôo.

Nos casos 1 e 3, como o piloto não decolou, a Segurança de Vôo não foi afetada mas o Juca, como tantos outros pilotos que conseguem desvencilhar-se dos entraves à execução do seu vôo e decolam, o fazem totalmente estressados com os fatos acontecidos no PRÉ VÔO, os momentos que antecedem seu vôo.

A dificuldade no acesso ao avião no pátio, o abastecimento que não chega, a Torre que só autoriza a decolar na hora colocada no Plano, o Plano que não é aceito por telefone, os órgãos de controle que insistem em controlar um vôo VFR, são algumas coisas que também estressam um piloto.

O CENIPA, órgão central do Sistema responsável pela Segurança de Vôo poderia agir junto à ANAC e DECEA para tentar, através de mudanças na legislação, minimizar as situações que possam gerar STRESS PRÉ VÔO nos pilotos.

 

 

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