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Acidentes


ASA DELTA EM S. CONRADO

Recém transferido para a Base Aérea de Canoas- RS, havia visto no Rio a novidade esportiva da época- o Vôo Livre com asa delta. No Sul, procurei os “voadores” locais e conheci dois deles, Gilberto e Roberto, ambos Patrulheiros Rodoviários.

Aprendi a voar num morrote lá mesmo, na Vila Scharlau, onde moravam. Lembro que a asa era uma autêntica “Rogalo”, igual a que o cientista do mesmo nome havia projetado para funcionar como os paraquedas hoje usados pelas naves espaciais na sua reentrada na atmosfera da terra. A idéia não usada pela NASA nos presenteou com mais um esporte aéreo, um dos melhores.

Havia comprado uma Cirrus 3 em sociedade com um colega da FAB, Comber. Da Vila Scharlau fui para Sapiranga onde voei com ela de numa rampa intermediária. Foi só um vôo pois no fim de semana seguinte voaríamos em Morro dos Conventos-SC numa rampa improvisada para um evento publicitário.

Estava eu com 13 vôos quando aconteceu o Primeiro Campeonato Gaúcho de Vôo Livre do qual participei e empatei com mais cinco pilotos no segundo lugar. Dele participaram os “locais” e mais uma dúzia de pilotos do Rio, entre eles Paul Gaiser ( ficou em primeiro

lugar empatado com Miguel Accordi que voava em Sapiranga), Patrick Bredel, Marcelo Tarabini e outros que já não lembro.

Asas na área de pouso durante o Campeonato em Sapiranga

As férias seguintes foram passadas no Rio pois S. Conrado é o site de Vôo Livre mais charmoso e que mais atrai voadores no pais, mesmo não apresentando as melhores condições para o vôo.

Naqueles vinte dias do verão de 1978 voei muito e fiz muitos amigos em S. Conrado. Minha Cirrus 3 voava razoavelmente. Estavam surgindo as asas com pano duplo e começava o reinado das Atlas e Comet.

Lembro que saíamos cedo do Grajaú onde ficava hospedado na casa dos pais da minha ex-mulher e éramos os primeiros a chegar em S. Conrado. Ela ficava na praia com o Yuri que tinha 5 anos e eu fazia tantos vôos quantos eram possíveis, em função das “caronas” para subir até a rampa.

Na véspera de voltar para o Sul, eu era o último na seqüência para decolagem. Faltavam umas seis asas para decolar quando percebi que as nuvens começavam a correr da terra para o mar, anunciando o “terral” que é o “desmancha prazer” dos voadores pois impede as decolagens. Estas somente são possíveis com o vento soprando de frente na rampa, no máximo desviado uns quarenta e cinco graus.

Os pilotos à frente ficavam esperando uma boa “rajada” para decolar e demoraram muito a sair. Como resultado, na minha vez o vento de frente já havia cessado e a primeira rajada de “terral” me jogou areia da área de montagem das asas nas costas, quando tomava posição para decolagem na rampa.

Percebi que após a rajada por trás, o vento cessava por alguns instantes e a calmaria durava uns dois minutos, tempo suficiente para eu decolar e me afastar da rampa e da floresta.

Aí, tive a idéia de jerico: espero a rajada de cauda cessar, conto até dez e decolo.

Assim pensei e assim fiz. Na hora que corri, minha ex, sentada na rampa disse que recebeu muita areia nas costas com o ventão que entrou por trás. Aí não tem jeito: no curto espaço da rampa não é possível, nem eu teria pernas, para correr o suficiente para atingir a velocidade mínima de vôo da asa somada à velocidade do vento. 

Saí com a asa mole e sem comando e não tive altura para picar e acelerar o suficiente para recuperar o controle. Como conseqüência de uma “tendida” para a esquerda, a asa me levou de volta à montanha depois de fazer 180 graus de curva. Com a “crashada” era inevitável, tentei “arborizar” o mais suave possível na copa de uma árvore. Nesta hora minha maior preocupação era não danificar meu “brinquedo”.

Consegui “pousar” com os dois pés num galho e a asa ficou sobre a copa, sem nenhum dano aparente. Restava agora fazer o resgate pois a noite se aproximava e no dia seguinte eu viajaria.

O “João do mato”, morador da rampa onde era vigia, veio em meu socorro e em pouco tempo estava com a asa desmontada, dentro de sua capa e sobre o meu Opala, o que eu deveria ter feito quando o vento mudou.

Como lição aprendi que é muito mais prudente, barato ( tive que pagar o João) e seguro descer para a praia com a asa desmontada sobre o carro do que “forçar a barra” e tentar decolar com condições de vento adversas.

 

 

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Decolando da rampa da Pedra Bonita em S. Conrado-RJ
Asa "bacalhau" decolando da rampa de Sapiranga-RS
Meus instrutores Gilberto e Roberto
Pilotos que participaram do 1o Campeonato Gaúcho de Voo Livre
A Cirrus 3 , eu e meu sócio, Mikel Comber
Pousando no gramado em Sapiranga-RS
Decolando da "rampa" de Morro dos Conventos-SC
Minha segunda asa, uma Griphon.