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Artigos Técnicos


HABILITAÇÃO EM AVIÃO ANFÍBIO- UM DESAFIO

O Brasil, com seus oito mil kilômetros de praias e rios em profusão cortando seu território, deveria ter uma grande frota de aeronaves hidro e anfíbias mas esta não é nossa realidade.

Na Região Amazônica concentram-se os poucos exemplares( cerca de 15 aeronaves na área de Manaus). 

Esta carência de aeronaves torna difícil a vida dos também escassos pilotos habilitados neste tipo de equipamento pois muitos SERAC (agora GER) não possuem checadores para realizar os vôos necessários à renovação da sua habilitação e poucas são as aeronaves disponíveis para um vôo de recheque.

Agora, se alguém quiser obter a qualificação inicial em hidro ou anfíbio, a dificuldade é ainda maior. Não existem instrutores com aviões disponíveis para formar um piloto de anfíbio.

O Jean Peter é o feliz proprietário de um dos dois Seawind existentes no Brasil. Trata-se de um avião anfíbio experimental “high performance” com capacidade para piloto mais quatro passageiros e equipado com um motor Lycomming de 300 Hp. Piloto privado formado a muito tempo mas fora do vôo por 30 anos, comprou o Seawind e tratou de renovar seu PP, o que fez no AC de S. Paulo. Adaptou-se à nova aeronave e aprendeu a operá-la na água: tecnicamente estava pronto para curtir seu novo brinquedo em total segurança, faltava apenas resolver a parte legal, ou seja, colocar o anfíbio no seu CHT-Certificado de Habilitação Técnica.

Aí começou o seu problema: o DAC(agora ANAC) não checa nem recheca piloto privado em aeronave experimental. A única maneira do Jean poder voar, legalmente habilitado, o seu Seawind seria fazendo o curso em outra aeronave anfíbia homologada e nela ser checado. Fácil não é? Seria, se não houvesse a dificuldade em se conseguir um avião e um instrutor disposto a dar a instrução.

Eu mesmo, fiz o curso do Seawind lá nos “States”, com o Dick Silva, fabricante do kit deste belo anfíbio. Voltei de lá com uma carta onde ele declara que eu sou “piloto de teste” e “instrutor” credenciado pela fábrica mas, como meu CHT estava vencido, não podia voa-lo aqui no Brasil. Tentei revalidar nele mas não deu por ser experimental, tentei fazer o cheque no Lake do Gerard Moss mas não deu pois quando a aeronave estava disponível no Rio, o SERAC 3(hoje GER3) não tendo checador de anfíbio teria que solicitar um ao SERAC 7 e aí o Gerard já teria viajado. Assim, fiquei quase um ano tentando, sem sucesso, colocar em dia minha habilitação.

Numa passagem por Macaé, com os T6 da OI, conheci o Paulo Brahma ( apelido colocado porque seu avô foi proprietário da primeira fábrica de cerveja da Amazônia, depois vendida para a Brahma. Detalhe: ele só bebe refrigerante), piloto de helicópteros da HELIVIA operando nas plataformas mas amante da aviação anfíbia nas horas de folga. Lá em Macaé ele me falou do Cessna 185 hidro e de seu hangar flutuante nas margens do Rio Tarumã, em Manaus. Achando que isto daria uma matéria de interesse dos nossos leitores falei com o Juca e marcamos uma ida até lá para conferir.

O Jean Peter soube da viagem e foi comigo pois tentaríamos nossa habilitação em anfíbio.

O Paulo Brahma é um dos dois checadores de anfíbios do SERAC 7 e estava em Manaus na sua folga quinzenal. Necessitávamos um instrutor e um avião. Fomos apresentados ao Daniel Moreno, proprietário da Tio Táxi Aéreo Ltda que tem um Lake Bucaneer e um C 206 hidro. Ele e o Walter Lincoln, piloto do Caravan anfíbio da RICO Táxi Aéreo Ltda, nos deram a adaptação ao Lake.

Fiz o primeiro vôo pois já havia voado o Lake. O Jean foi atrás. Decolamos do Aeródromo de Flores, administrado pelo AC do Amazonas, e atravessamos o Rio Solimões, tudo coordenado pelo APP Manaus. Fizemos nossos pousos no Solimões em frente ao Lago Salvador. A primeira seção foi encerrada pois um enorme CB se aproximava de Manaus e resolvemos voltar. 

Cruzando o rio, o APP nos informou que o Aeroporto Eduardo Gomes estava sob chuva torrencial e o vento já chegava a 40 Kt. Nesta hora avistamos os efeitos do vento, já sobre o rio. Colunas de água subiam em direção às nuvens, sugadas pelas fortes correntes ascendentes.

Fizemos 180 graus e fomos procurar um lago abrigado para pousar e aguardar a passagem da tempestade. Pousamos no Lago Iranduba e ficamos dentro do avião que derivou até encostar numa “moita” de aguapés. Choveu e ventou muito. Apesar da pouca visibilidade vimos que estávamos sendo envolvidos por uma enorme quantidade de plantas. 

O CB chegando. Nosso instrutor enquanto aguardávamos, pousados, a passagem do CB 

Demos a partida no motor e fugimos dali para o centro do lago. Em seguida decolamos e voltamos para o Aeródromo de flores, não sem antes levar um susto com fumaça saindo do painel do Lake. Descobrimos que fora uma sobrevoltagem que derreteu um fio e danificou o transponder.

Neste mesmo dia o Jean fez seu primeiro treinamento, completado na manhã seguinte. Como seu cheque era inicial, foi necessário voar 6 horas, o mínimo exigido pelo DAC(agora ANAC) para conceder uma habilitaçãoo de anfíbio, embora ele já estivesse apto ao cheque com apenas 3 horas, graças à sua experiência no Seawind. As seis horas de treinamento mais uma hora de cheque lhe custariam quase dez mil reais ( R$1.200,00 a hora) e teve que gastar esta quantia porque o DAC(ANAC) não checa em aeronaves experimentais. Estávamos prontos para o cheque num avião homologado. 

Jean Peter na final para pousoChegando no Peixe Boi depois do vôo de cheque

O Omer Yurtsever, Vice-Presidente da Rico Linhas Aéreas Regionais e ex-sócio do Moreno na Tio Táxi Aéreo, nos deu carona e fomos todos ao SERAC 7 para dar entrada no pedido de cheque para o Jean e de recheque para mim. 

Poucas vezes vi usuários serem atendidos com tanta simpatia em algum órgão do Sistema de Aviação Civil. Os comandados do T. Cel Av Gomes Alves verificaram toda nossa documentação e nos deram as autorizações de cheque em menos de uma hora. Sei que alguns SERAC tem uma carga de trabalho bem superior à deles mas isto somente influiria no tempo de atendimento. Jean e eu saímos comentando sobre a simpatia dos militares que nos atenderam: Maj Av Cassiano, Chefe da Seção de Habilitação e os Sgt Ferreira e Bomfim que trabalham com ele. Nos trataram como “pessoas de bem” que somos e não como “golpistas” como várias vezes me senti sendo tratado noutros lugares.

Para comemorar, fomos até a casa de praia do Omer, pegamos sua lancha e fomos Almoçar no Peixe Boi, o restaurante da Ana que fica num braço do Rio Tarumã. Lá, sobre dois flutuantes, encontramos a casa onde esta paulista cheia de histórias para contar mora há 17 anos e o restaurante, onde saboreamos algumas costelas de tambaqui e postas de pirarucu, tudo regado a cerveja gelada. O assunto principal foi algumas histórias sobre um dos pilotos mais conhecidos na Amazônia, o Rogério Maconha, que morava ali com a Ana quando estava em Manaus. Seus amigos juram que nem cigarro normal ele fumava, apesar do apelido. O Omer mandou vir a garrafa de run que ele trouxera do Caribe e dera ao Rogério e com ele fizemos um brinde “à alma do Rogério”.

No dia seguinte fomos checados e aprovados pelo Paulo Brahma. 

Sobre nosso checador, grande entusiasta da aviação, temos uma história triste. Algum tempo depois, quando o Gerard e a Margi Moss passavam por Manaus durante o projeto Brasil das Águas, amigos do Paulo, o convidaram e fizeram um vôo com repórteres estrangeiros nas duas aeronaves: Lake do Gerard e C 185 do Paulo. Pousaram num rio para fotos, Gerard decolou na frente de volta à Manaus mas estranhou não escutar o Paulo no rádio. Voltou para ver o que acontecera e avistou o avião do Paulo emborcado dentro d’água(apenas os flutuadores de fora). OPousou ao lado, ainda tentou mergulhar para tirá-lo do avião mas foi tudo inútil. Foi-se, inexplicavelmente, um ótimo piloto e amigo.

Jean Peter de pé e Paulo Brahma na asa. Paulo Brahama no Lake.

 

 

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