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Artigos Técnicos


PISTA PARA TRÁS

GASOLINA NO CAMINHÃO DA PETROBRÁS

MULHER BONITA NAMORANDO O OUTRO

NÃO LHE SÃO DE NENHUMA UTILIDADE


Por isto use toda a extensão da pista e, antes da decolagem certifique-se que o combustível a bordo é suficiente para o vôo pretendido. 

Além de decolar da cabeceira, esteja sempre preparado para uma “pane na decolagem” que é coisa muito feia. Usam-na até para definir o grau de feiura de uma mulher: “é mais feia do que pane na decolagem”. O Land, um coronel solteirão, diz que namorar garota “de menor” é mais perigoso do que pane na decolagem. O piloto fica completamente “vendido” pois estará à baixa altura e com baixa velocidade. Como o diabo gosta. Além disto, muitas das vezes desconcentrado pois poucos fazem mentalmente o “briefing” da decolagem, item obrigatório em qualquer bom “check-list”. Nele se deve rever os procedimentos de emergência e avaliar a pista e o melhor lugar onde pousar se o motor parar. Você nunca sabe se não será naquela decolagem que você terá a sua pane! Se o motor parar e ainda tiver pista à frente porque não desperdiçou nenhum pedaço dela, você dará valor a este conselho. 

Diz a doutrina ensinada nas escolas de aviação que, em caso de pane na decolagem, deve-se pousar em frente. Quando não há mais pista, muitos tentaram voltar. A maioria estolou e bateu.

Já escrevi artigo intitulado: Em pane na decolagem nunca pouse em frente. Isto se aplicava ao vôo de garimpo onde, no prolongamento da pista a mata derrubada cede lugar à Imbaúba, uma vegetação de caule macio e folhas enormes que dá o aspecto de um tapete verde e macio, mas que fecham e escondem os tocos e os troncos das árvores, fazendo uma perfeita armadilha para os incautos. O pouso em frente é, na maioria das vezes, fatal. Um desvio de 45º é o mais correto em 99% das pistas localizadas no meio do mato. É preferível jogar o avião sobre a copa das árvores vivas e flexíveis do que nos troncos grossos e rígidos.

Pane seca já causou muitos acidentes. Como explicar que um piloto, instruído, treinado e checado, cometa um erro de cálculo e fique sem combustível? Não se pode esquecer de checar o combustível a bordo, não é JUCA?

Combustível suficiente a bordo inclui o que será gasto segundo o planejamento, os quarenta e cinco minutos de reserva exigidos pela legislação e uma quantidade como reserva técnica caso a meteorologia não esteja favorável.

As panes secas, no entanto, acontecem. Conheço tantas histórias....e para quase todas aparece uma explicação.

Fui para a feira de Sorocaba com um Seawind. Na ida percebi que só baixava o indicador de nível de um dos tanques. Transferi do auxiliar para o tanque que baixava e cheguei lá tranqüilo. Pedi ao dono do avião que verificasse a quantidade de combustível em cada tanque e ele achou que os dois lados estavam iguais e que deveria ser pane de indicação.

Na volta ao Rio novamente percebi que um tanque baixava enquanto o outro se mantinha cheio. Pela experiência da ida, deduzi que era pane de indicação e não me preocupei, tendo inclusive sobrevoado várias ilhas lá da baia de Angra dos Reis. Além disto, o sistema de combustível deste avião é composto de tanques nas asas e um header tanque para onde a gasolina desce por gravidade.

Pousei em Jacarepaguá e no táxi para o hangar o motor parou, apesar de eu estar com um tanque completamente cheio. Deu pane numa válvula unidirecional que não deixou o combustível cair por gravidade para o header tanque.

Pane seca não é privilégio de nossa aviação esportiva. Acontece com aviões de grande porte também, como num B767 que pousou numa antiga pista transformada em autódromo. O piloto trocou quilo por litro e colocou menos combustível do que o necessário.

Na aviação de caça era comum pousarmos com a luz da bruxa acesa. Lá em Canoas a área de instrução onde treinávamos combate aéreo ficava sobre o mar. A ordem era para interromper o combate ao acender a luz. Por vezes forçávamos a barra e mantínhamos o combate por mais uma ou duas reversões e já abandonávamos a área de “calças curtas”. O pouso era feito sem direito a arremetida. 

O erro mais comum é decolar com a gasolina contada. Se o vento for mais forte do que o previsto e ainda por cima houver muito tráfego a situação pode se complicar, isto sem contar desvios de rota por erros de navegação. Pousar em uma pista alternativa é a solução, quando houver uma. Conheci piloto no garimpo que, para fazer vôo de 15 minutos para transportar óleo da estrada até a pista, fazia o cálculo: ida e volta 30 minutos, consumo horário 60 lt, colocava 32 litros, só 2 de reserva.

Certa vez quase fiquei em situação crítica quando esqueci de fechar a tampa do tanque sobre a asa do Skylane. Por sorte percebi a nuvem de combustível que ficou atrás do bordo de fuga da asa e pousei antes que todo o combustível fosse sifonado para fora do tanque. Se não houvesse uma pista no caminho eu teria outro acidente para contar.

Já a mulher bonita namorando o outro....é muito perigoso também, mas é história para uma roda de cerveja. 

 

 

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