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CEL AV AZAMBUJA, UM CMTE QUE DEIXOU SAUDADES

O Esquadrão PAMPA estava de comandante novo. Recém chegado e assumindo o comando, o AZAMBA como era carinhosamente chamado, deveria fazer o curso do F5 além de atualizar-se com a aviação de caça que evoluíra muito nos últimos anos. Esta atualização foi implementada pelos oficiais que passaram um período na USAF realizando curso previsto no Programa F5 e nós aprendemos com eles.

Nesta época já fazíamos o REVO (reabastecimento em vôo). Eu aprendi com alguns oficiais da USAF que estiveram em Santa Cruz, no Primeiro Grupo de Caça onde eu voava antes de ir para Canoas. Lembro da adaptação que foi necessária fazer no programa de instrução dos “gringos”: a órbita para espera do abastecedor teve que ser realizada sobre uma “broadcasting” o que, para eles era um absurdo, uma vez que só o faziam sobre um VOR com radial definida para o “encontro” caças/abastecedor, isto quando não era feito com apoio de um radar de interceptação. Nunca deixamos de encontrar com o “Barão” num REVO. 

Naquela época o avião tanque era o C-130 Hécules, o que tornava mais emocionante a missão por causa da diferença de velocidade. Quando saíamos com dois sub-alares e mais o centerline, reabastecendo a 20 000 pés, a velocidade baixa do Barão nos obrigava a voar com os flapes em manobra e, à medida que recebíamos combustível íamos abrindo as manetes. A um certo ponto, com o F5 completamente “embarrigado”, a potência em 100%, começávamos a “atrasar” na posição. Aí a saída era dar PC num dos motores e tirar potência do outro, manobra que já fazíamos com certa facilidade, mantendo posição na ala.

Para poder treinar os PAMPAS, havia a necessidade do deslocamento do C-130 dos Afonsos para Canoas. Aí passávamos uma semana dedicados ao REVO. Nesta vez o “Barão” chegaria num domingo e o AZAMBA convidou os oficiais para receber a equipe do GTT que viria liderada pelo Cel Valle, o comandante do Esquadrão e seu amigo particular.

O AZAMBA era gaúcho daqueles tradicionalistas e lá estava ele de bombacha e alpargatas, à espera do amigo com sua cuia de chimarrão e garrafa térmica, maneira que os “tchês” usam para dar as boas vindas a quem querem bem. Estávamos todos em frente à sala de tráfego quando pousou o abastecedor e aguardamos ali mesmo pelos recém chegados. Se bem me lembro, o Cesar Nei era o outro tripulante.

Aí o Valle chegou e o AZAMBA passou-lhe às mãos a cuia dizendo-lhe da grande satisfação em tê-lo nas terras gaúchas, etc, etc. O Valle, não sei se por desconhecimento ou para mexer com o amigo, pegou a cuia, olhou bem, segurou a bomba e mexeu a erva como se mexe uma xícara de café, desmontando o chimarrão. Isto, para um gaúcho é pior do que xingar a mãe. Para quem não sabe, não se pode mexer na bomba sem autorização do anfitrião. Se estiver entupido, quem preparou o chimarrão é que deve concerta-lo.

Levou bem uns três dias para voltarem a se falar. 

Mas, como dizia, o AZAMBA tinha que aprender a reabastecer e na esquadrilha estava eu como instrutor, ele e o Peres. O quarto piloto não lembro quem era. Estava um dia turbulento o que tornava difícil a aproximação com a mangueira e a “plugada” na cesta. Numa das muitas tentativas ele demorou a tirar o motor, após errar a cesta, e a mangueira enrolou-se na fuzelagem como uma cobra. A cesta foi parar lá perto do profundor, após dar duas voltas no avião. Foi necessário muito sangue frio por parte dele para ir “atrasando” lentamente, de forma a permitir que a mangueira desenrolasse sem romper. Na ala eu só podia torcer para que ela não “agarrasse” em alguma antena, o que complicaria a situação.

Voltamos do vôo sem nenhuma perda, apenas com um F5 de nariz amassado devido às “porradas” que a cesta lhe deu.

Definitivamente o REVO era o “karma” do AZAMBA. Tempos depois, numa manobra da FAB, estavam ele e o Peres numa esquadrilha quando, após um ataque à Anápolis, foram abastecer à baixa altura. Depois de várias tentativas onde também levou muita pancada da cesta no nariz, o AZAMBA foi muito à frente e a cesta pegou numa antena rompendo a borda que lhe dá o formato. Por coincidência houve uma pane no sistema hidráulico que mantém a mangueira posicionada e a recolhe quando empurrada para frente, e o AZAMBA falou no rádio: - Barão, aqui é o PAMPA 01. INFORMO MANGUEIRA MORTA (esta era a forma correta de informarmos o problema ao abastecedor), ao que o Peres completou: - MORTA NÃO. ASSASSINADA.

 

 

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