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Cronicas


MEU VÔO DE BATISMO

FAIRCHILD - PT-19. Foi num deles que sai do chão pela primeira vez. Confesso que procurei o AC de S. Leopoldo para me tornar piloto só para ficar isento do serviço militar. Meus pais tinham uma fazendinha e esperavam que eu me tornasse um Engenheiro Agrônomo e que fosse cuidar da mesma.

Já havia estudado na Escola Agrícola de Teutônia onde fiz o Ginásio Agrícola e na Escola Técnica de Viamão onde fiz o primeiro período de um curso técnico de agronomia, equivalente ao segundo grau.

Nunca havia tido nenhum contato com aviões até aquele momento e então lá estava eu diante de um belo PT-19. O Cmte Cavedon fazia a inspeção externa e eu o observava curioso. Não lembro quem puxou a conversa, se eu ou ele, mas acabei sendo convidado para voar de saco naquele vôo.

Acrobacia na primeira experiência. Foi assim que me apaixonei pelo vôo e mudei todos os meus planos de vida.

O mais próximo que tinha chegado de algum objeto voador fora alguns anos antes quando ajudava um primo a montar aeromodelos de cabo. Voávamos nos fins de semana e passávamos as noites da semana concertando as quebras. A gente só parava de voar quando acabava o combustível ou acontecia uma pane ou acidente. Geralmente sobrava combustível.

Quem já voou num PT-19 sabe qual é a sensação. O Cavedon fez todas as manobras, inclusive o vôo invertido. Agora imagine isto para quem nunca havia voado e ainda por cima estava mal amarrado, com o cinto frouxo. Quando saia do avião, pendurado no suspensório, recebia na cara o vento com cheiro de fumaça e de gasolina. Quem não voa não sabe o que é sentir cheiro de gasolina de aviação! É mais ou menos como sentir o perfume daquela moça especial, quando se está apaixonado e ela o abraça.

Matriculado iniciei o curso. Aulas teóricas nos sábados e vôo nos domingos. A “piruação” para o vôo era por ordem de chegada. Era um sacrifício acordar cedo. Nem para todos! Muitas vezes saíamos das festas direto para o ACSL, colocávamos o nome na lista e dormíamos no carro até a hora do brífim.

Os primeiros a voar eram os responsáveis por colocar os aviões para fora do hangar e abastecê-los. E ainda éramos obrigados a abastecer os aviões dos pilotos que vinham ao ACSL para voar. Hoje é fácil pois as bombas são elétricas. Naquele tempo a bomba manual era colocada no tonel de 200 lt e dele bombeávamos para o tanque dos aviões, o que exigia bastante esforço.

Em 1966 comecei e conclui meu PP em CAP-4s e P-56s com alguns vôos no PIPER J3 de matrícula PP-RZL. Acabei o curso e recebi minha Licença de número 12.002. Fazia minhas horas de vôo aguardando a prova da EVAER, escolinha da VARIG, para entrar na companhia, quando conheci a FAB através da Esquadrilha da Fumaça. 

Foi numa festa no Aeroclube. Pela primeira vez assisti aviões voando em formação. E a estréia foi assistindo quatro T6s com o melhor time, o orgulho da FAB. 

Lá também estava o Alberto Bertelli com seu Bücker, sempre acompanhando a esquadrilha.

À noite sai para beber uma cerveja com a moça que na época eu namorava. Conosco foi sua irmã e o líder da Fumaça, naquele deslocamento. Omito o nome para não comprometê-lo. Ele era o operações do Cel Braga.

Entre uma e outra cerveja perguntei-lhe: - como faço para voar esses aviões?

-Vá ao COMAR e se inscreva para o concurso da Escola de Aeronáutica... foi a resposta. Na segunda feira estava eu lá em Canoas fazendo minha inscrição para a EPCAR-Escola Preparatória de Cadetes do Arque fica em Barbacena-MG

Nova mudança de planos. Entrei para a EPCAR, a escola que prepara o pessoal para a AFA, a Academia da Força Aérea. Na minha época chamava-se Escola de Aeronáutica e ficava no Campo dos Afonsos. Assim virei Aviador Militar.

Voltei na voar num PT-19 em duas ocasiões: no AC de Nova Iguaçu (ACNI), no Rio de Janeiro e num EBRAVE no AC do Rio Grande do Sul (ARGS).

Em N. Iguaçu eu fora para voar um ultraleve Mirage do Paul gaiser e para solá-lo no mesmo. Tínhamos apenas um problema: a aeronave era monoplace. O Paul era exímio piloto de asa delta, tricampeão brasileiro de vôo livre, mas nunca havia pilotado um avião. Antes eu voei com ele num Uirapuru no qual mostrei-lhe como era o estol e sua recuperação, como era a entrada num parafuso e sua recuperação, fez curvas, aprendeu o uso do motor e fez alguns pousos e decolagens. O vôo solo do Paul foi como eu esperava, tranqüilo e seguro. 

Terminado o treinamento, vi chegando um PT19. Vinha taxiando até a cabeceira onde estávamos, trazido pelo presidente do Aeroclube de Nova Iguaçu do qual, infelizmente esqueci o nome. Trouxe o PT já sentado atrás, e me convidou para um vôo. Decolei, subi e fiz uns loopings e tunôs. Quando pousei e cheguei ao estacionamento ele desceu e colocou o Yuri, meu filho, no seu lugar e pude voar com ele, repetindo o vôo que fiz em 1966 com o Cavedon. 

Ao pousar, estacionei ao lado do ultraleve. Ao agradecer-lhe a oportunidade do vôo ele me contou que aquele avião viera do Aeroclube de S. Leopoldo. Aí eu soube que aquele PT era o mesmo no qual voei meu primeiro vôo. 

Mais tarde ele teve um problema na longarina e foi aposentado tendo sido doado ao MUSAL onde está hoje com as cores da FAB.

No EBRAVE, lá em Belém Novo-RS, estava na organização do evento junto com os demais sócios do ARGS-Aeroclube do Rio Grande do Sul. Naquele ano a aeronave “tema” era o Fairchild PT-19 e conseguimos reunir nove deles lá no Sul. Vieram de vários Aeroclubes, de vários cantos do país. Lembro de alguns: AC de Pernambuco, AC de Pelotas, AC do Paraná, AC de Itápolis, AC de S. Maria. O Cmte Machado deve ter o registro de todos. 

Resolvemos fazer um vôo de formatura com as nove aeronaves. Seria o ponto alto do evento. Tínhamos um problema: os pilotos dos PTs não sabiam voar na ala. Como no ARGS havia um grupo de pilotos que fazia uma demonstração de vôo em formatura com 12 Paulistinhas, convenci os comandantes visitantes a levarem de “saco” um desses pilotos. Após a decolagem eles assumiam o comando e voavam na ala. Fizemos uma bela demonstração. Eu liderei o grupão a bordo do PT do AC de Itápolis.

 

 

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