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Reportagens


O TIGER MOTH DO DARCY ASSIS

Se bem me lembro, foi lá por 1982 que conheci o lendário Darcy Assis. Bigode à la Mongol ( estreito e com pontas bem longas), sempre com suas sandálias franciscanas, não importando o frio do inverno gaúcho lá de Osório, sempre reclamando de alguma coisa mas com um amor pela aviação que contagia qualquer um.

Darcy estava empenhado em restaurar um velho Tiger Moth do qual tinha os pedaços. Faltava-lhe o motor, segundo ele. O trabalho seria feito na sua oficina junto ao Clube de Planadores Albatroz onde o Darcy mantinha uma escola para artífices em madeira. Seus alunos eram crianças de rua que ele recolhia e ensinava a trabalhar a madeira para uso aeronáutico. Para sustentar a escola fabricava e vendia alguns móveis e pedia doações aos amigos.

Falei com o Marees que era do SERAC V, tentei achar um motor, fiz o que pude mas saí do DAC e da FAB sem ver o Tiger voando. 

Voava lá por Itaitúba, no garimpo, quando soube que o "velho" estava hospitalizado após ter quebrado o Tiger lá no Campo dos Afonsos, durante uma das festas do MUSAL. Liguei para o hospital e falei com ele. Já sabia que sua saúde estava boa e fui logo reclamando: - Pô "velho". Como é que tu me quebras o avião antes de eu ter voado?? Na hora ele prometeu: - Fica tranqüilo que eu o reconstruo e tu vais poder voá-lo.

Algum tempo depois chegou a notícia que, num retorno de Alegrete onde fora para uma festa, o Tiger quebrara novamente. Desta vez foi numa decolagem com vento de través. Início da corrida de decolagem: manche para o lado para baixar a asa do vento, manche à frente para levantar a cauda, manche no centro para nivelar as asas. Velocidade suficiente para voar: manche para trás para tirar o avião do chão. E quem disse que o manche vinha?? Trancou numa barra que colocaram atravessada na fuzelagem, por baixo do painel, à guiza de reforço estrutural, na última reconstrução. Com o manche para o lado foi possível passar por baixo da barra mas no centro ele ficou mais alto e trancou. Não deu outra: não havia pista suficiente para abortar a decolagem e se espatifaram no final da pista.

Aí o Darcy fez a última reconstrução do Tiger. Tempos depois levou-o para o II Festival Aéreo de Canela onde eu fazia a parte de operações. O tempo estava péssimo. Morcego andava de bengala. Não era aconselhável o vôo visual como diria o funcionário da FSS-Flight Service Station quando é consultado quanto às condições do tempo para uma determinada rota, nos EUA. 

Resolvi voar assim mesmo pois depois de tantas quebradas, não sabia se teria outra oportunidade de voar uma máquina tão famosa e tão especial. Foi um vôo curto pois o tempo realmente não ajudava. Curti muito aquele vôo, especialmente pela curiosidade do velocímetro que era original, do tipo "badin", ou seja, uma aleta presa no montante e que, pela ação do vento movia-se sobre uma escala onde se lia a velocidade. Por falar em velocidade, lembro que a velocidade de estol ficava a uns 5 Kts da VNE e as velocidades de subida e de cruzeiro ficavam neste meio.

E aí o Tiger fez seu último vôo, algum tempo depois, lá em Osório. Ele acabou-se sobre um hangar, no mesmo lugar onde renascera tantas vezes.

 

 

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