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Reportagens


ANFÍBIOS NA AMAZONIA

Aeronave anfíbia ou hidro? Aparentemente não há muita diferença mas engana-se quem pensa assim.

Na década de 80 houve uma febre de ultraleves hidro lá no CEU no Rio de Janeiro e foi neles que aprendi a voar na água. Eram QuickSilvers terrestres aos quais foram adptados flutuadores. Nos fins de semana, voar exigia grande movimentação dos funcionários do clube pois, pela manhã, as aeronaves deviam ser transportadas, sobre carrinhos, do hangar até a rampa por onde desciam até a água da lagoa. Lá era retirado do carrinho e as encalhávamos na areia. No final do dia o trabalho era inverso: os ultraleves eram colocados sobre os carrinhos e levados até o hangar. 

Aí chegaram os anfíbios, capazes de pousar na água e na terra. Vieram dois Bucaneer importados mas logo a Microleve colocava no mercado o corsário e o Leoni o Albatroz, ambas aeronaves com casco flutuante ao invés de flutuadores e trem de pouso retrátil. Tudo ficou mais fácil, principalmente para os funcionários do clube que não necessitavam mais empurrar os carrinhos até a lagoa nem entrar na água para libera-los dos carrinhos. Bastava retira-los do hangar. Mais recentemente a Flyer fez o Hidroflyer e o Miguel fez o Airmax.

Como vimos, os primeiros ultraleves que operaram na água foram os terrestres que tiveram seus trens de pouso trocados por flutuadores. Os primeiros anfíbios foram projetados para tal e já eram do tipo casco flutuante. Evoluíram de hidro para anfíbio sem passar pelos flutuadores equipados com trem de pouso retrátil que equipam a maioria dos aviões que opera na água e na terra.

Embora a operação na água seja das mais praseirosas, o número de aviões hidros e anfíbios é insignificante, se comparado com o dos terrestres. 

Nas primeiras décadas da infância da aviação esta participação foi mais significativa, tendo diminuído na proporção em que as pistas de pouso foram sendo construídas, permitindo o avanço deste meio de transporte. Hoje existem menos de 20 aviões homologados e 2 experimentais Seawind em operação na água no Brasil.

Nos últimos anos apenas a Maule, a Husky e a Cessna vendiam aviões capazes de operar na água, todos utilizando-se de flutuadores adaptados à aeronaves terrestres. Juntou-se a estes fabricantes a Seawind/S.N.A Inc. que está homologando sua aeronave na FAA dos EUA e é a única que usa o casco flutuante. Na Rússia também existem algumas aeronaves anfíbias sendo fabricadas

Dentro dos experimentais abaixo de 750 kg de MTOGW, estão os ultraleves e neles há uma maior participação dos anfíbios que passam de 100, embora no RAB constem apenas 5 corsários, 5 Max anfíbios e 1 hidroflyer registrados na categoria. Existe um erro no RAB que os classifica como terrestres.

Um flutuador anfíbio para avião custa uma nota preta. O mais famoso é o EDO e seu preço gira ao redor de US$75,000.00 para um avião monomotor. Já os flutuadores puros, sem o trem de pouso, são bem mais baratos e, além disto, seu peso é bem menor, não penalizando tanto a performance da aeronave. Estes são os motivos, a meu ver, de existirem mais aviões hidro do que anfíbios.

Na minha estada em Manaus voei o Lake do Tio Táxi Aéreo para revalidar minha habilitação em anfíbio. Fiz umas duas horas de vôo no PT-LJO.

No entanto, o que me encantou mesmo foi um vôo de 15’ que fiz no C 180 hidro do Omer Yurtsever, Vice-Presidente da RICO, uma eficiente empresa que serve a Amazônia com uma bela frota de aeronaves. Eu já havia voado um avião anfíbio com flutuadores, o Maule PT-KBM do qual o Yuri era o piloto tempos atrás, e já conhecia esse tipo de operação em avião e que, na água, não difere muito daquela em ultraleves hidro. 

O Omer tem uma casa na beira do rio Tarumã. Existem dois flutuantes , um com o hangar do PT- KGE, todo em alumínio( o melhor que vi por lá) e outro para sua lancha de 23 pés onde se entra navegando. 

Lá dentro, com uma “talha” ela é suspensa e retirada da água. O jetski do Omer fica numa garagem “em seco”e desce até o rio por uma enorme rampa.

São muitos os aviões hidro que voam por lá e a solução que deram para a hangaragem dos mesmos foi genial: construíram hangares flutuantes. 

Aliás, pelos rios e igarapés daquela região, o que mais se vê são “coisas” flutuantes: posto de gasolina, oficina de motores para barcos, casas, restaurantes, hangares para aviões, garagens para barcos, etc.

Um dos motivos desta “flutuabilidade” das coisas, é a enorme “flutuação” do nível das águas causada pelas cheias do inverno e a seca do verão que chega a cinco metros. Os hangares ficam sempre na margem do rio. À medida que as águas vão baixando, vão acompanhando a descida da água e se afastando da margem, de forma a poder colocar o avião na água a qualquer momento.A operação se faz com o avião colocado sobre um carrinho que é puxado por um gincho manual ou elétrico.

Os aviões são usados para lazer ou para realizar os vôos panorâmicos com os turistas que acorrem a Manaus atrás das belezas das suas matas e rios. 

Um dos programas é ir ao restaurante Peixe Boi deliciar-se com a melhor comida da região, criação da Ana, uma paulista que foi lá a passeio 17 anos atrás e, apaixonada pelo lugar, construiu sua casa e o restaurante sobre poderosos troncos de madeira que lhe dão flutuabilidade e os “poitou” num braço do rio Tarumã. No cais deste restaurante existe uma placa reservando parte dele para os aviões anfíbios.

O Peixe Boi era o refúgio e Ana a namorada do Rogério Maconha, um piloto de garimpo que conheci quando voava em Itaituba. Os amigos juram que ele não fazia uso de cigarros, quanto mais de “baseados” mas não me explicaram a origem do apelido. Rogério era uma figura muito especial e deixou muitos amigos por lá. Me contaram ( em cada refeição que fazíamos no Peixe Boi ouvia algumas histórias), que o Rogério foi contratado para buscar um avião nos EUA. Na vinda, numa ilha do Caribe, ele conheceu um comerciante de camarões que lhe propôs usar o avião para buscar o produto noutra ilha. Chegou ao Brasil com o avião uns dez meses depois. O dono do avião já o dava por perdido e os amigos achavam que o Rogério havia caído no mar. Chegou como se nada tivesse acontecido, entregou o avião e ainda cobrou o traslado. 

Faleceu e, em 2003 o Omer levou suas cinzas para Manaus e as espalhou sobre o rio Solimões, após uma tocante cerimônia de despedida realizada no hangar da Tio Táxi Aéreo Ltda ( onde o Jean e eu fizemos nosso treinamento no Lake).

Fui a Manaus com o propósito de conhecer a aviação que voa na água por lá. Encontrei 16 aeronaves em vôo mas somente 2 delas constam no RAB como MNAF, as demais são MNTE. Assim mesmo, somente 10 estão com a situação normal. Para a ANAC as aeronaves hidro ( só pousam na água) são classificadas como MNTE. Algumas tem uma anotação “pouso na água” . Dos 10 Cessnas e 2 Maules que estão com a situação NORMAL no RAB, 8 exibem a anotação “pouso convencional”, típica dos terrestres.

 

 

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