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Reportagens


O “GRANDE” MINI 500

Aeronaves podem ser vistas por dois ângulos distintos, dependendo das intenções do observador: o prático, sem emoção, objetivo- são o melhor meio de transporte individual ou coletivo da atualidade, e o emocional, subjetivo e muito personalizado- são “máquinas de voar” que proporcionam prazer aos amantes do vôo.

Indiscutivelmente, considerando a aeronave como um simples meio de transporte, o disco voador será, num futuro próximo,o melhor, mas até lá o helicóptero será a melhor opção para quem necessita de transporte rápido à curtas e médias distâncias.

A cada dia vemos mais “aeronaves de asas rotativas” , o nome técnico do helicóptero, sobrevoando nossas cidades num vai-vém alucinado, levando empresários apressados de casa para o trabalho e vice-versa, alguns particulares e outros coletivos, à serviço de empresas de táxi aéreo que já têm linhas tipo “ponte-aérea” com horários de saída, como a que liga o Barra Shoping na Barra da Tijuca ao Aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro.

E o prazer de voar aonde fica? Por que não aliar a praticidade do melhor meio de transporte ao prazer de voar, transformando uma “ida para o trabalho” num momento de lazer?? Ah! Isto seria muito bom mas ficaria muito caro!!

O custo para a aquisição de um helicóptero e sua posterior manutenção tem sido um tabú para muitos. Imagina-se que seja coisa para milionários e, dependendo do tipo da aeronave, isto pode ser verdade. Mas existe hoje no mercado uma nova opção: os mini helicópteros de um e de dois lugares. 

O que você diria de poder adquirir um helicóptero que anda a 120 Km/h, consumindo 20 lt de combustível e cujo kit pode ser adquirido por R$ 44.000,00??

Pois já temos voando no Brasil o MINI 500 fabricado em Kit nos EUA e vendido no Brasil pela Brasfor.

Augusto Cicaré, um Argentino autodidata que já projetou e construiu oito helicópteros, o primeiro em 1964, e um deles com duplo rotor principal e sem rotor de cauda, foi o inventor do sistema de controle das pás que eliminou o uso do “swashplate” convencional . O novo sistema inventado por ele é composto de uma “estrela” que fica abaixo do mastro do rotor principal e que recebe os comandos do cíclico e do coletivo. Atravéz de tubos push-pull e terminais esféricos que sobem por dentro do mastro, estes comandos são levados às pás, eliminando 30% das peças que compõem os sistemas antigos munidos de “swashplate”, diminuindo com isto a manutenção e as vibrações.

Cicaré foi convidado por Dennis Fetters para levar seu último invento para o encontro de oshkosh em 199...

Fetters, dono da Revolution Helicopters Inc., fabricante de girocópteros, pretendia adquirir os direitos de fabricação do CH-7. Como não houve acordo na parte financeira, Cicaré retornou à Argentina deixando sua máquina guardada num galpão até que dispusesse do dinheiro para o frete de volta. Sem que ambos soubessem, a esposa do Argentino havia requerido a patente deste sistema nos EUA. 

Pouco tempo depois era anunciado o MINI-500 aos americanos, dando Fetters como o inventor do sistema. 

A empresa italiana Elisport, por sua vez adquiriu os direitos de fabricação do CH-7 e, com uma carenagem desenhada por Marcello Gandini .....chamou-o ANGEL, o qual voei na Itália quando havia a pretensão de trazê-lo para o Brasil. Por problemas financeiros a existência da fábrica teve curta duração e a decepção com o seu fechamento foi grande.

Finalmente a Revolution Helicopters Inc. regularizou a produção e entrega dos kits e Dennis Fetters comemorou em 21 de dezembro de 1995 a entrega do 100º kit de uma lista de clientes que já passa dos 500. Os planos são para entregar até o final do ano o kit nº 458.

No ano passado eu conheci o Mini 500 durante o Sun N’Fun e aguardava com ansiedade o início da sua operação por aqui. Fiz a importação e o registro do PT-ZFS comprado pelo Walter Almeida e montado pelo José Carlos e pelo LENO lá em Terezópolis. O Leno fez os primeiros vôos e detectou uma forte vibração no aparelho, o que retardou bastante a operação plena do ZFS. Graças no entanto à sua larga experiência em helicópteros, concluiu que o problema se devia à falta de eficiência do estabilizador horizontal que fazia com que o aparelho voasse com a fuzelagem desalinhada do disco do rotor. Colocou um “tab” fixo que permitiu este alinhamento e acabou com a vibração. Esta solução já foi adotada pela fábrica que também brigava para solucionar o problema.

O Laert marcou o vôo para esta reportagem lá no CEU-Clube Esportivo de Ultraleves em Jacarepaguá. Fizemos as fotos à bordo do Corsário do Armando Nogueira e como o Walter voltara para S. Paulo devido ao mau tempo no dia anterior, sem a presença do proprietário ficava difícil para o Leno emprestar-me o brinquedo para um vôo, já que sendo um helicóptero monoplace eu teria que sair “no peito”.

Por fim vendo que a matéria ficaria estéril sem um depoimento e uma comprovação de que é possível e fácil para um piloto de helicóptero voar o Mini 500, o Leno consentiu e eu finalmente matei a vontade por tanto tempo retardada.

O motor ROTAX 582 tão nosso conhecido dos ultraleves dá e sobra para o mini-helicóptero, permitindo uma sobra de potência que lhe permite facilmente operar fora do “efeito solo” e, no “hover”, torna fácil a sua operação. Como o Leno já havia me alertado, o comando do rotor de cauda é muito efetivo, permitindo operação com vento em qualquer direção.

Primeiro vôo é primeiro vôo. Todo cuidado é pouco, até porque já fazia algum tempo desde meu último vôo de helicóptero. Abri a manete com cuidado até teras rotações em 100%. Aí fui puxando o coletivo mantendo a rotação do rotor abrindo a potência até que vi a grama sendo deitada pelo vento causado pelo rotor que ganhava sustentação.

Sabia então que estávamos próximos de igualar a sustentação gerada pelas pás do rotor principal, condição em que o helicóptero fica “leve” nos skis, e é a hora de checar se a posição do cíclico está correta, pois ele deverá estar exatamente na posição em que não induza nenhum movimento lateral ou longitudinal, e os pedais comandando o passo do rotor de cauda de forma a contrariar o torque induzido pela rotação do rotor principal. Parece complicado mas com a prática se consegue no primeiro instante e eu tirei o bichinho do chão e permaneci exatamente acima da área onde estava inicialmente.

Alguns movimentos laterais, para frente e para trás, giro sobre o eixo, tentando perceber a reação do Mini-500 à cada amplitude de comando e, como o Leno não fez nenhum comentário pelo rádio, decolei aproado com o vento e fui experimentá-lo lá em cima, confirmando seu cruzeiro a 75 mph ( 126 Km/h), realizando alguns “quickstops”, manobra usada para desacelerar e que eu usaria para o pouso.

Fiz uma aproximação e arremeti no ar pois briguei muito com o rotor de cauda na transição para o pairado. Novo tráfego e finalmente pousei já brigando menos mas tendo ainda que treinar um pouco mais, afinal não durou mais de dez minutos esta minha apresentação ao Senhor Mini-500. Mais alguns vôos e estarei chamando-o de você pois já deu para sentir toda a sua potencialidade.

O Mini-500 é um helicóptero experimental, monoplace, com ambos os rotores bipá. Sua estrutura básicaé uma treliça de tubos de aço cromo molibidênio soldados pelo processo T.I.G em gabarítos com tensões aliviadas e que é a base de fixação dos demais componentes.

O trem de pouso tem as pernas em tubos de aço, são carenados e possuem uma elasticidade que lhe permite absorver impactos sem necessidade de amortecedores, e que em caso de pousos mais duros sofrem uma deformação plástica antes de romperem-se.

Os 65 hp do motor Rotax são transmitidos através de uma embreagem que acopla quando o motor ultrapassa as 3.000 RPM, para uma roda motriz (dentada) ligada à roda dentada superior através de uma correia também dentada. Esta roda superior é acoplada ao pinhão da transmissão principal e tem no seu interior a embreagem de sobrerotação que desengrasa automaticamente quando não há transmissão de rotação e torque pelo motor, permitindo assim a autorotação e o pouso seguro do helicóptero numa eventual falha do Rotax.

O grande “it” do helicóptero é que a transmissão da rotação ao rotor de cauda, pelo rotor principal, é feita através de um eixo tubular de alumínio e de uma caixa do rotor de cauda, diferentemente do Rotor Way Exec que tive a alguns anos atrás, cuja transmissão para a cauda era feita por uma correia lisa de três estágios e que era seu ponto fraco. 

Na fabricação de seus componentes foram utilizados processos e materiais aeronáuticos como o alumínio 6061 T6 e o aço cromo-molibidênio 4130. As pás do rotor principal têm uma longarina no bordo de ataque extrudada em alumínio, um núcleo em espuma usinada e revestida com uma camada de fibra de vidro e todos os componentes feitos de “composite”são feitos pela técnica “pré-preg epoxi fiberglass”, moldados e curados em forno a 250º F.

Carregando 55,7 lt de combustível e consumindo um pouco menos do que 20 lt/h pode voar 2h:20 com reserva de 30 minutos, o que representa quase 300 km sem reabastecimento.

Pesa apenas 220 Kg. Mais leve que muito ultraleve, aliás esta é sua classificação lá fora. Pode Carregar até 161 kg de carga útil, o que é bem razoável.

Com dimensões compatíveis ( 6,86m de comprimento, 1,60m de largura e 2,51m de altura) é de fácil manejo.

Em resumo, o Mini-500 é no momento “a máquina”. Bem feito, com ótima performance e um bom preço.

 

 

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